Precisei organizar minha vontade de dizer ficção. Botei num outro lugar. A princípio todas as próximas, a não ser que alguma se descaiba do tema. Que é
Por mais diversos que sejam seus dialetos, o nome daquele país significava, para seus habitantes (muito além de qualquer etimologia argumentável): limite, circunscrição, realidade, fato. Aquele país era o que todos viveriam e viverão, dia após dia. Isso permaneceria inalterado.
Quem já fuçou também descobriu que Héteros não sabem dançar
Aquele País terá atualizações semanais, preferencialmente às sextas feiras. Essa semana teve uma na quarta e outra talvez amanhã ou sábado, em excessão prévia.
Heteros não sabem dançar é coletivo e deve ser atualizado bem frequentemente.
Este aqui não será abandonado, ainda tem seu significado próprio e peculiar
que também deve, aliás, se delinear melhor.
Me leiam que eu tô carente.
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giovedì, ottobre 30, 2008
venerdì, maggio 30, 2008
lunedì, gennaio 21, 2008
Pequeno caso que demonstra a inexplicabilidade do processo democrático
Coube ao gabinete dAquele Secretário elaborar o Artigo Constitucional no qual se determinariam as cores permitidas na representação do número sete. Assim que a tarefa lhes foi designada, os diversos funcionários e funcionárias começaram seu trabalho. A primeira notificação veio da Assistente de Escritório: ela recomendou que calhava admitir-se o uso do branco, e do preto, caso contrário todas as publicações em branco e preto (ou em preto e branco) ver-se-iam seriamente restritas no seu uso da numeração, e a Liberdade de Imprensa, bem lembrou o Vice-Secretário era de importância maior para a Moralidade do Novo Governo Revolucionário, na Eminente Figura do Senhor Seu Marechal.
Sugeriu o Gerente de Comunicações que se aprovassem também todos os tons metálicos, assim, os números afixados às paredes e portas de casas, além dos túmulos, é claro – o respeito aos mortos é muito importante nessas ocasiões – seriam poupados; a refactura de tais números poderia custar fortunas desnecessárias ao Estado. Muito pelo contrário, bradou o Assessor de Imprensa, dado que os esforços da guerra civil provocaram uma escassez de minério, principalmente do cobre, muito importante para as Linhas Nacionais de Energia e Informação. Sendo assim, a proibição, e conseguinte recolhimento, de todas as representações do número sete feitas em metal fundido poderia prover um reaproveitamento destes importantes recursos. Uma emenda no artigo, ele disse, poderia estimular o uso de tons marrons amadeirados, dado que a madeira é um recurso renovável e de fácil acesso à população. Como os Senhores podem perceber, as preocupações desse humilde Assessor são de que a população possa facilmente repor os algarismos retirados com um mínimo de custo para o Estado.
A essa altura surgiu uma dúvida crucial para todos, mas que foi apontada primeiramente pela Sub-Chefe de Sessão Administrativa - tratamos aqui das representações absolutas do número sete, ou de qualquer uso do algarismo sete? Pois, até o momento, tem se pensado em todas as representações gráficas do desenho "7", o que gera uma ambigüidade preocupante nas Instruções recebidas do Congresso. Naturalmente, tenhamos o endereço do Senhor Contador de Finanças, por exemplo: sua casa está marcada Trinta e Sete, que é um número, diferente do Sete comum; mas, para nomeá-la, ele usa o símbolo do valor que aqui nos cabe. Soma-se a isso a dúvida a respeito dos Algarismos Romanos: determinamos aqui a coloração também da seqüência de letras VII?
Recesso Reflexivo foi sugerido pelo Próprio Senhor Secretário, afinal essa dúvida tornava tudo mais confuso; (pois sua sobrinha era concunhada de um rapaz cujo meio-irmão de criação havia sido casado com a Terceira Assistente de Redação e Registro do Gabinete dAquele Outro Secretário, que estava responsabilizado por determinar as Normas para Capitulação em Impressos Oficiais ou Extra-Oficiais, e desta veio a informação confiabilíssima de que os Algarismos Romanos seriam de uso extremamente comum na Nova Ordem, ou seja, que o problema é sério mesmo). O Estagiário para Assuntos Comuns, nesse momento, precisou que lhe explicassem a gravidade da situação: veja bem, o Gabinete fora designado para estipular sobre o número sete, e apenas sobre o número sete. Porém, nos algarismos romanos, o sete (VII) está incluso no oito (que se escreve VII e agora, mais um I, assim, VIII, veja só). Nesse caso, seria preciso identificar, em todo o Congresso, qual é o Pensamento Revolucionário acerca do uso do número oito, arábico e romano, e de suas cores, antes de tomar qualquer atitude que pudesse gerar um conflito considerado Contra-Revolucionário – palavra esta que, quando pronunciada, era sempre acompanhada por gesto marcado do interlocutor, traçando uma linha imaginária de lado a lado pelo pescoço com o dedo indicador.
A Pauta do segundo dia foi aberta com a declaração do Senhor Secretário de que o artigo iniciar-se-ia especificando regulamentar sobre o uso de todo e qualquer grafia na forma de “7”, mas que a coloração das letras VII só seria restringida quando estas, explicitamente, participassem da representação de um valor que, em algarismos arábicos, incluiria a utilização da figura supra-citada. Casos omissos seriam julgados pela autoridade cabível, ainda a ser estipulada na Nova Constituição. Todos aplaudiram o gênio legislador do secretário, que se mostrou nesse gesto digno da confiança nele depositada pelo Marechal ao atribuir ao seu humilde gabinete tão delicada tarefa. Naturalmente que muitos, sobretudo os mais jovens, conservaram algumas de suas inquietações a respeito da interpretação adequada das instruções centrais; inquietações essas que, pela Etiqueta do Novo Regime, serão conservadas por cada um em foro íntimo, como tema da consciência. Dificultar ainda mais o processo legislativo poderia gerar uma falsa visão de que Aquele Gabinete se colocava em postura retrógrada, em desacordo com o Bem Comum da Nação, e nenhum dos Senhores desejava isso.
Estabelecidas as bases jurídicas sobre as quais trabalhariam, retomou-se o debate cromático propriamente dito. O Assessor de Imprensa retomou seu argumento, pois a legislação, lembrou ele, deveria, em todos os seus meandros, apontar para o Progresso da Nação. Para a Ajudante Pessoal dAquele Secretário, tal pensamento configurava-se utilitário; opinou que o único critério válido neste momento de elaboração da Nova Constituição seriam os Princípios Revolucionários que nortearam a mobilização popular. Apesar de concordar, em absoluto, com a lógica da proposição, o Senhor Contador de Finanças atentou para o fato de que nenhum dos referidos Princípios determinava qualquer preferência de coloração ou numeração, então, como poderiam fazê-lo? Não seria o caso, inqueriu o Estagiário, de então permitir o uso de todas as cores do espectro visível?
Assombro tomou conta do Gabinete. O Senhor Secretário discursou do absurdo do ato, que seria como rejeitar a missão que lhes foi conferida pelo Próprio Eminente Senhor Seu Marechal. Mesmo que a palavra “Contra-Revolucionário” não tenha sido utilizada, o sinal característico com o dedo indicador sobre o pescoço marcou a reação de vários dos Senhores e Senhoras Funcionários dAquele Gabinete. Após pausa prolongada o suficiente para que o jovem engolisse em seco, a Assistente de Escritório notou que a cor amarela havia sido removida da bandeira, então que talvez fosse cabível bani-la também nesse caso. Finalmente, uma unanimidade!, - mesmo que de certa forma descontente, por parte da Sub-Chefe de Sessão Administrativa, que encontrava cada vez menos espaço para utilizar esta que era a sua cor favorita. Sacrifícios pessoais têm de ser feitos pelo bem da revolução, e era de admirável firmeza de caráter a sua resignação. Todos concordavam também que ela certamente teria uma carreira brilhante dentro do Novo Governo.
Proibir somente uma cor, porém (mesmo que sendo uma das chamadas cores primárias), não seria suficiente para demonstrar ao Congresso o afinco que a tarefa exigira destes humildes Cidadãos. Como deveriam entregar a redação do artigo até o fim da tarde do dia seguinte, concluíram que o tempo urgia. O Gerente de Comunicações propôs, dado que já havia uma cor de maior importância na lista do veto, caberia agora a escolha de tons secundários e terciários, de nomes duvidosos, que também deveriam ser evitados. Gelo, Bordô, Marfim, começou a listar o Encarregado de Datilografia; Fúcsia, Magenta, Petróleo... Os demais presentes se impressionaram com a participação súbita de membro tão calado dAquele Gabinete e, por votação simples, concluíram que as três primeiras cores arroladas seriam restritas, mas que detalhamento maior nessa atividade seria desnecessário. Ficou então decidido que a redação para análise do Congresso poderia ser realizada no dia seguinte, no período da manhã, para que após o recesso do almoço já fosse encaminhada as Autoridades Maiores. Também decidiram, em votação aberta e espontânea, que o Senhor Encarregado de Datilografia poderia parar de citar nomes raros de tons, interrompendo-o quando este lembrava de cores como o Cerúleo e a Sépia. Todas as matizes anotadas, porém, foram preservadas na ata, para garantir uma melhor representação do esforço e empenho da equipe de trabalho dAquele Secretário.
A equipe confraternizou e todos os Senhores cumprimentaram-se pelo bom trabalho, dando a missão por cumprida. No dia seguinte, poderiam todos comparecer aos desfiles pela manhã, que apenas o Senhor Secretário e o Senhor Encarregado de datilografia bastariam para a redação do artigo. Todos voltaram orgulhosos para sua casa, aguardando os festejos da manhã. Descansando tranqüilos pela noite, os funcionários daquele gabinete não notaram, nos muros de toda a cidade, mais, de todo o País, a rápida proliferação de novos números sete (arábicos e romanos) pintados, grafitados, gravados, construídos em mosaicos de azulejos, ou de toda sorte de material, sempre nas novas tonalidades proibidas.
Sugeriu o Gerente de Comunicações que se aprovassem também todos os tons metálicos, assim, os números afixados às paredes e portas de casas, além dos túmulos, é claro – o respeito aos mortos é muito importante nessas ocasiões – seriam poupados; a refactura de tais números poderia custar fortunas desnecessárias ao Estado. Muito pelo contrário, bradou o Assessor de Imprensa, dado que os esforços da guerra civil provocaram uma escassez de minério, principalmente do cobre, muito importante para as Linhas Nacionais de Energia e Informação. Sendo assim, a proibição, e conseguinte recolhimento, de todas as representações do número sete feitas em metal fundido poderia prover um reaproveitamento destes importantes recursos. Uma emenda no artigo, ele disse, poderia estimular o uso de tons marrons amadeirados, dado que a madeira é um recurso renovável e de fácil acesso à população. Como os Senhores podem perceber, as preocupações desse humilde Assessor são de que a população possa facilmente repor os algarismos retirados com um mínimo de custo para o Estado.
A essa altura surgiu uma dúvida crucial para todos, mas que foi apontada primeiramente pela Sub-Chefe de Sessão Administrativa - tratamos aqui das representações absolutas do número sete, ou de qualquer uso do algarismo sete? Pois, até o momento, tem se pensado em todas as representações gráficas do desenho "7", o que gera uma ambigüidade preocupante nas Instruções recebidas do Congresso. Naturalmente, tenhamos o endereço do Senhor Contador de Finanças, por exemplo: sua casa está marcada Trinta e Sete, que é um número, diferente do Sete comum; mas, para nomeá-la, ele usa o símbolo do valor que aqui nos cabe. Soma-se a isso a dúvida a respeito dos Algarismos Romanos: determinamos aqui a coloração também da seqüência de letras VII?
Recesso Reflexivo foi sugerido pelo Próprio Senhor Secretário, afinal essa dúvida tornava tudo mais confuso; (pois sua sobrinha era concunhada de um rapaz cujo meio-irmão de criação havia sido casado com a Terceira Assistente de Redação e Registro do Gabinete dAquele Outro Secretário, que estava responsabilizado por determinar as Normas para Capitulação em Impressos Oficiais ou Extra-Oficiais, e desta veio a informação confiabilíssima de que os Algarismos Romanos seriam de uso extremamente comum na Nova Ordem, ou seja, que o problema é sério mesmo). O Estagiário para Assuntos Comuns, nesse momento, precisou que lhe explicassem a gravidade da situação: veja bem, o Gabinete fora designado para estipular sobre o número sete, e apenas sobre o número sete. Porém, nos algarismos romanos, o sete (VII) está incluso no oito (que se escreve VII e agora, mais um I, assim, VIII, veja só). Nesse caso, seria preciso identificar, em todo o Congresso, qual é o Pensamento Revolucionário acerca do uso do número oito, arábico e romano, e de suas cores, antes de tomar qualquer atitude que pudesse gerar um conflito considerado Contra-Revolucionário – palavra esta que, quando pronunciada, era sempre acompanhada por gesto marcado do interlocutor, traçando uma linha imaginária de lado a lado pelo pescoço com o dedo indicador.
A Pauta do segundo dia foi aberta com a declaração do Senhor Secretário de que o artigo iniciar-se-ia especificando regulamentar sobre o uso de todo e qualquer grafia na forma de “7”, mas que a coloração das letras VII só seria restringida quando estas, explicitamente, participassem da representação de um valor que, em algarismos arábicos, incluiria a utilização da figura supra-citada. Casos omissos seriam julgados pela autoridade cabível, ainda a ser estipulada na Nova Constituição. Todos aplaudiram o gênio legislador do secretário, que se mostrou nesse gesto digno da confiança nele depositada pelo Marechal ao atribuir ao seu humilde gabinete tão delicada tarefa. Naturalmente que muitos, sobretudo os mais jovens, conservaram algumas de suas inquietações a respeito da interpretação adequada das instruções centrais; inquietações essas que, pela Etiqueta do Novo Regime, serão conservadas por cada um em foro íntimo, como tema da consciência. Dificultar ainda mais o processo legislativo poderia gerar uma falsa visão de que Aquele Gabinete se colocava em postura retrógrada, em desacordo com o Bem Comum da Nação, e nenhum dos Senhores desejava isso.
Estabelecidas as bases jurídicas sobre as quais trabalhariam, retomou-se o debate cromático propriamente dito. O Assessor de Imprensa retomou seu argumento, pois a legislação, lembrou ele, deveria, em todos os seus meandros, apontar para o Progresso da Nação. Para a Ajudante Pessoal dAquele Secretário, tal pensamento configurava-se utilitário; opinou que o único critério válido neste momento de elaboração da Nova Constituição seriam os Princípios Revolucionários que nortearam a mobilização popular. Apesar de concordar, em absoluto, com a lógica da proposição, o Senhor Contador de Finanças atentou para o fato de que nenhum dos referidos Princípios determinava qualquer preferência de coloração ou numeração, então, como poderiam fazê-lo? Não seria o caso, inqueriu o Estagiário, de então permitir o uso de todas as cores do espectro visível?
Assombro tomou conta do Gabinete. O Senhor Secretário discursou do absurdo do ato, que seria como rejeitar a missão que lhes foi conferida pelo Próprio Eminente Senhor Seu Marechal. Mesmo que a palavra “Contra-Revolucionário” não tenha sido utilizada, o sinal característico com o dedo indicador sobre o pescoço marcou a reação de vários dos Senhores e Senhoras Funcionários dAquele Gabinete. Após pausa prolongada o suficiente para que o jovem engolisse em seco, a Assistente de Escritório notou que a cor amarela havia sido removida da bandeira, então que talvez fosse cabível bani-la também nesse caso. Finalmente, uma unanimidade!, - mesmo que de certa forma descontente, por parte da Sub-Chefe de Sessão Administrativa, que encontrava cada vez menos espaço para utilizar esta que era a sua cor favorita. Sacrifícios pessoais têm de ser feitos pelo bem da revolução, e era de admirável firmeza de caráter a sua resignação. Todos concordavam também que ela certamente teria uma carreira brilhante dentro do Novo Governo.
Proibir somente uma cor, porém (mesmo que sendo uma das chamadas cores primárias), não seria suficiente para demonstrar ao Congresso o afinco que a tarefa exigira destes humildes Cidadãos. Como deveriam entregar a redação do artigo até o fim da tarde do dia seguinte, concluíram que o tempo urgia. O Gerente de Comunicações propôs, dado que já havia uma cor de maior importância na lista do veto, caberia agora a escolha de tons secundários e terciários, de nomes duvidosos, que também deveriam ser evitados. Gelo, Bordô, Marfim, começou a listar o Encarregado de Datilografia; Fúcsia, Magenta, Petróleo... Os demais presentes se impressionaram com a participação súbita de membro tão calado dAquele Gabinete e, por votação simples, concluíram que as três primeiras cores arroladas seriam restritas, mas que detalhamento maior nessa atividade seria desnecessário. Ficou então decidido que a redação para análise do Congresso poderia ser realizada no dia seguinte, no período da manhã, para que após o recesso do almoço já fosse encaminhada as Autoridades Maiores. Também decidiram, em votação aberta e espontânea, que o Senhor Encarregado de Datilografia poderia parar de citar nomes raros de tons, interrompendo-o quando este lembrava de cores como o Cerúleo e a Sépia. Todas as matizes anotadas, porém, foram preservadas na ata, para garantir uma melhor representação do esforço e empenho da equipe de trabalho dAquele Secretário.
A equipe confraternizou e todos os Senhores cumprimentaram-se pelo bom trabalho, dando a missão por cumprida. No dia seguinte, poderiam todos comparecer aos desfiles pela manhã, que apenas o Senhor Secretário e o Senhor Encarregado de datilografia bastariam para a redação do artigo. Todos voltaram orgulhosos para sua casa, aguardando os festejos da manhã. Descansando tranqüilos pela noite, os funcionários daquele gabinete não notaram, nos muros de toda a cidade, mais, de todo o País, a rápida proliferação de novos números sete (arábicos e romanos) pintados, grafitados, gravados, construídos em mosaicos de azulejos, ou de toda sorte de material, sempre nas novas tonalidades proibidas.
martedì, novembre 06, 2007
Hog is where the heart is
Era uma vez três irmãos porquinhos que precisavam de corações para que seu sangue circulasse e suas bochechas corassem e eles pudessem sorrir.
O primeiro gostava muito das coisas cristalinas e transparentes. Ele queria um coração que filtrasse a luz como um prisma, que mostrasse força e leveza, que fosse sólido e puro e inatingível. Então ele fundiu a areia da praia, preencheu um molde e o lapidou, até que fez um coração de vidro, límpido e reluzente. Como era duro e pontiagudo, conseguiu enfiá-lo no seu peito como um punhal, e lá ele ficou.
Um dia o Lobo Mau veio do mato. Com seus olhos de lobo, ele viu a cicatriz no peito do porquinho e percebeu o que tinha ali. Disse "Dê-me esse coração, porquinho!". Mas o animalzinho era rígido e puro, bateu o pé e disse firmemente que não. Enfurecido, o Lobo alertou "Eu vou cantar e cantar e cantar e seu coração eu vou estilhaçar!". O porquinho riu-se dessa estranha ameaça, mas o Lobo, certo de si, sentou-se defronte a ele e começou a uivar, um uivo perfeito de soprano, umas notas tão agudas, um som tão intenso, que o coração de vidro do pobre porquinho se agitou tanto dentro daquelas entranhas, se bateu contra isso e contra aquilo e contra si mesmo e se partiu em mil pedacinhos, que voaram pelas veias e artérias e deixaram o porquinho morto, todo esburacado, sangrando ali no chão.
Para o segundo porquinho, nada era melhor do que as coisas flexíveis e macias. Procurou, para fazer seu coração, algo que pudesse se esticar e torcer e no fim voltasse sempre pra mesma forma, um coração espertinho que pudesse resistir a todas as brincadeiras. Rasgou a carne de uma árvore, colheu-lhe o sangue e moldou-se um diminuto coração de borracha. Como era muito mole e flexível, o coração pôde ser engolido pelo porquinho, que enfiou-o goela abaixo e ajeitou sua posição com exercícios de diafragma.
Depois de deixar o primeiro porquinho, o Lobo Mau sentiu-se solitário. Com o seu nariz de lobo, ele farejou a borracha e encontrou o irmão de sua vítima. Era muito esperto e sabia de onde vinha o cheiro; disse "Dê-me esse coração, porquinho". Mas esse segundo porquinho era malicioso e sabido, e fingiu que fosse dar sim, contando uma mentira aqui e outra ali, fazendo o Lobo esperar por horas a fio, sem nunca entregar seu coração. Finalmente, o Lobo Mau se cansou do jogo e gritou "Eu vou dançar e dançar e dançar e o seu coração eu vou arrancar". O porquinho ficou parado pasmo, sem entender nada.
Agilmente, o Lobo começou a dançar ao seu redor. Fazia piruetas, dava saltos, dançava balé e polca e samba, agitava todo o seu corpo de maneira que os olhos do porquinho tinham que rodopiar e rodopiar para acompanhá-lo. O coraçaozinho de borracha tentava seguir o movimento dos olhos, e foi se torcendo até virar um nó bem espremido. De súbito, o Lobo parou! Nisso, o nó se desfez com tanta força que aquela borracha torcida virou uma catapulta no interior do peito do porquinho, forçou-lhe todas as tripas para fora, pela boca. Caiu o segundo irmão morto, sobre uma poça de vômito e intestinos.
O irmão mais velho era o mais corajoso e forte dos três. Preferia um coração que fosse como ele, poderoso, radiante, temível e protetor ao mesmo tempo. Esfregou suas patas contra o peito, muito rápido, muitas vezes, com muita força. Primeiro só as dianteiras, depois, como não bastasse, usou também as traseiras, torceu-se inteiro, passou uma semana rolando pelo chão, até que todo aquele calor fez queimar em seu peito um coração perfeito, todo feito de fogo.
Lá longe, o Lobo Mau estava enfadado. Com seus ouvidos de lobo, ele ouviu o crepitar do coração do terceiro porquinho. Pôs suas pernas de lobo para correr rapidamente naquela direção, seu nariz de lobo para farejar a fumaça, sua boca de lobo salivava e salivava de apetite por aquele coração, até que seus olhos de lobo o avistaram. Era lindo, não havia nada no mundo que um Lobo Mau pudesse querer mais que o coração flamejante daquele porquinho. "Dê-me seu coração!", ele gritou, mas o porquinho apenas sorriu e disse "Você não merece." "Dê-me seu coração!", ele insistiu muitas vezes, mas não adiantava. O Lobo prostrou-se e parou para pensar um pouco. Finalmente, recuperou a confiança de sempre, ergueu-se sobre duas patas, ficou o mais alto que podia, e declarou, resoluto: "Eu vou te olhar e te olhar e te olhar, e teu coração eu irei conquistar". E fez apenas isso.
Era um olhar profundo que o porquinho não podia desviar; algo tão forte, tão desejoso, que ele precisava ficar ali, que ele precisava entregar seu coração. Mas não podia, imagine, sem seu coração ele morreria. Foi ai que o plano do Lobo começou a funcionar; aquele olhar era mais quente do que as patas do porquinho; mais do que rolar pelo chão por uma semana inteira; até do que a luz do sol. Era tanto que o fogo começou a crescer. O porquinho mais velho gritava de dor enquanto era consumido por seu próprio coração gigante de fogo.
Vitorioso, o Lobo esperava que agora bastaria parar de fitar e o fogo não mais cresceria. Mas, da mesma maneira que seus olhos eram hipnóticos, também o era a chama. Ele não poderia separar-se dela, nem deixar de alimentá-la, e o coração flamejante foi virando uma pequena estrela ali no meio da floresta. Queimou o Lobo, cremou os corpos mortos dos porquinhos e espalhou suas cinzas pelos ventos; consumiu as árvores, os animais e a grama; evaporou os rios e matou todos os peixes, e só parou de crescer quando não havia mais nada que pudesse incendiar. Finalmente, no meio do deserto chamuscado, a chama foi minguando, minguando, até que daquele imenso coração só restou uma brasinha. Que, delicadamente, pousou sobre o chão e depois de um, dois, três, três segundos e meio, se apagou.
O primeiro gostava muito das coisas cristalinas e transparentes. Ele queria um coração que filtrasse a luz como um prisma, que mostrasse força e leveza, que fosse sólido e puro e inatingível. Então ele fundiu a areia da praia, preencheu um molde e o lapidou, até que fez um coração de vidro, límpido e reluzente. Como era duro e pontiagudo, conseguiu enfiá-lo no seu peito como um punhal, e lá ele ficou.
Um dia o Lobo Mau veio do mato. Com seus olhos de lobo, ele viu a cicatriz no peito do porquinho e percebeu o que tinha ali. Disse "Dê-me esse coração, porquinho!". Mas o animalzinho era rígido e puro, bateu o pé e disse firmemente que não. Enfurecido, o Lobo alertou "Eu vou cantar e cantar e cantar e seu coração eu vou estilhaçar!". O porquinho riu-se dessa estranha ameaça, mas o Lobo, certo de si, sentou-se defronte a ele e começou a uivar, um uivo perfeito de soprano, umas notas tão agudas, um som tão intenso, que o coração de vidro do pobre porquinho se agitou tanto dentro daquelas entranhas, se bateu contra isso e contra aquilo e contra si mesmo e se partiu em mil pedacinhos, que voaram pelas veias e artérias e deixaram o porquinho morto, todo esburacado, sangrando ali no chão.
Para o segundo porquinho, nada era melhor do que as coisas flexíveis e macias. Procurou, para fazer seu coração, algo que pudesse se esticar e torcer e no fim voltasse sempre pra mesma forma, um coração espertinho que pudesse resistir a todas as brincadeiras. Rasgou a carne de uma árvore, colheu-lhe o sangue e moldou-se um diminuto coração de borracha. Como era muito mole e flexível, o coração pôde ser engolido pelo porquinho, que enfiou-o goela abaixo e ajeitou sua posição com exercícios de diafragma.
Depois de deixar o primeiro porquinho, o Lobo Mau sentiu-se solitário. Com o seu nariz de lobo, ele farejou a borracha e encontrou o irmão de sua vítima. Era muito esperto e sabia de onde vinha o cheiro; disse "Dê-me esse coração, porquinho". Mas esse segundo porquinho era malicioso e sabido, e fingiu que fosse dar sim, contando uma mentira aqui e outra ali, fazendo o Lobo esperar por horas a fio, sem nunca entregar seu coração. Finalmente, o Lobo Mau se cansou do jogo e gritou "Eu vou dançar e dançar e dançar e o seu coração eu vou arrancar". O porquinho ficou parado pasmo, sem entender nada.
Agilmente, o Lobo começou a dançar ao seu redor. Fazia piruetas, dava saltos, dançava balé e polca e samba, agitava todo o seu corpo de maneira que os olhos do porquinho tinham que rodopiar e rodopiar para acompanhá-lo. O coraçaozinho de borracha tentava seguir o movimento dos olhos, e foi se torcendo até virar um nó bem espremido. De súbito, o Lobo parou! Nisso, o nó se desfez com tanta força que aquela borracha torcida virou uma catapulta no interior do peito do porquinho, forçou-lhe todas as tripas para fora, pela boca. Caiu o segundo irmão morto, sobre uma poça de vômito e intestinos.
O irmão mais velho era o mais corajoso e forte dos três. Preferia um coração que fosse como ele, poderoso, radiante, temível e protetor ao mesmo tempo. Esfregou suas patas contra o peito, muito rápido, muitas vezes, com muita força. Primeiro só as dianteiras, depois, como não bastasse, usou também as traseiras, torceu-se inteiro, passou uma semana rolando pelo chão, até que todo aquele calor fez queimar em seu peito um coração perfeito, todo feito de fogo.
Lá longe, o Lobo Mau estava enfadado. Com seus ouvidos de lobo, ele ouviu o crepitar do coração do terceiro porquinho. Pôs suas pernas de lobo para correr rapidamente naquela direção, seu nariz de lobo para farejar a fumaça, sua boca de lobo salivava e salivava de apetite por aquele coração, até que seus olhos de lobo o avistaram. Era lindo, não havia nada no mundo que um Lobo Mau pudesse querer mais que o coração flamejante daquele porquinho. "Dê-me seu coração!", ele gritou, mas o porquinho apenas sorriu e disse "Você não merece." "Dê-me seu coração!", ele insistiu muitas vezes, mas não adiantava. O Lobo prostrou-se e parou para pensar um pouco. Finalmente, recuperou a confiança de sempre, ergueu-se sobre duas patas, ficou o mais alto que podia, e declarou, resoluto: "Eu vou te olhar e te olhar e te olhar, e teu coração eu irei conquistar". E fez apenas isso.
Era um olhar profundo que o porquinho não podia desviar; algo tão forte, tão desejoso, que ele precisava ficar ali, que ele precisava entregar seu coração. Mas não podia, imagine, sem seu coração ele morreria. Foi ai que o plano do Lobo começou a funcionar; aquele olhar era mais quente do que as patas do porquinho; mais do que rolar pelo chão por uma semana inteira; até do que a luz do sol. Era tanto que o fogo começou a crescer. O porquinho mais velho gritava de dor enquanto era consumido por seu próprio coração gigante de fogo.
Vitorioso, o Lobo esperava que agora bastaria parar de fitar e o fogo não mais cresceria. Mas, da mesma maneira que seus olhos eram hipnóticos, também o era a chama. Ele não poderia separar-se dela, nem deixar de alimentá-la, e o coração flamejante foi virando uma pequena estrela ali no meio da floresta. Queimou o Lobo, cremou os corpos mortos dos porquinhos e espalhou suas cinzas pelos ventos; consumiu as árvores, os animais e a grama; evaporou os rios e matou todos os peixes, e só parou de crescer quando não havia mais nada que pudesse incendiar. Finalmente, no meio do deserto chamuscado, a chama foi minguando, minguando, até que daquele imenso coração só restou uma brasinha. Que, delicadamente, pousou sobre o chão e depois de um, dois, três, três segundos e meio, se apagou.
mercoledì, settembre 12, 2007
Tema para ficção sombria
O metrô de São Paulo conta com um equipamento, batizado de "saco de remoção de usuário", destinado à retirar os restos daqueles que se suicidam nos trilhos em pouco tempo, de maneira que esses corpos não interrompam o fluxo dos trens.
Isso significa que, quando alguém morre nos trilhos, a polícia não investiga a cena da morte.
Numa versão sombria da realidade (talvez um futuro apocalíptico próximo), qualquer morte no metrô é considerada automaticamente como suicídio, e a vítima é enterrada como indigente, sem qualquer inquérito.
Assassinatos em série que nunca serão investigados. Nunca...?
venerdì, giugno 22, 2007
Os fantasmas me divertem
Sozinho, certas noites, eu apago todas as luzes, fecho todas as portas, menos a veneziana da varanda. Através dos vidros, posso vê-los, são meus amigos fantasmas que vêm brincar. Podemos passar noites inteiras juntos. Quando estou desolado, recebo carinho de mãos etéreas. Compartilho meu calor humano com seu frio espectral. Se alguém me fere, é a eles que realmente pergunto o que fazer.
A maior parte do tempo, os fantasmas estão invisíveis, recolhidos no mundo sombrio onde os fantasmas devem habitar. Mas ao contrário dos amigos de carne, eles tem uma sensibilidade do tamanho do universo e a capacidade de viajar pela luz e pelo vento. Assim, basta eu crer que estaria mais contente com um fantasma do meu lado que um deles - ou toda a turma, dependendo do caso! - chegam ali e passam o tempo que for comigo, até eu me sentir melhor.
A maior parte do tempo, os fantasmas estão invisíveis, recolhidos no mundo sombrio onde os fantasmas devem habitar. Mas ao contrário dos amigos de carne, eles tem uma sensibilidade do tamanho do universo e a capacidade de viajar pela luz e pelo vento. Assim, basta eu crer que estaria mais contente com um fantasma do meu lado que um deles - ou toda a turma, dependendo do caso! - chegam ali e passam o tempo que for comigo, até eu me sentir melhor.
martedì, gennaio 09, 2007
Heróico.
Mais poderoso que uma locomotiva que sabe o mal que se esconde nos corações dos homens. Temido e odiado pelo mundo que as aranhas radioativas juraram proteger. Desde aquela noite no beco do crime, quando toda a população de seu planeta foi brutalmente assassinada por ele mesmo, Mandrake jurou vingança contra as florestas de Mongo e se tornou Agente Laranja, o primeiro super-herói a comprar lingerie com a mulher maravilha e a derrotar Wolverine num campeonato de bocha.
martedì, novembre 07, 2006
Guichê 6
É essa burocracia de estar apaixonado que as vezes nos cansa um pouco; mas é fundamental para que o procedimento ocorra bem. Cada diálogo deve ser cuidadosamente reproduzido no nosso formulário padrão, e submetido a análise. Não se esqueça de declarar 'monogâmico' ou 'poligâmico' ao retirar seus documentos; é extremamente importante que os bancos de dados possam diferenciar as pessoas disponíveis das que não estão. Assim, quando pedidos como o seu forem enviados, a resposta acontecerá mais rapidamente, em alguns casos sem necessidade de resposta direta da pessoa desejada. Pedimos por favor que você e o alvo de seu interesse contenham a ansiedade e não marquem qualquer forma de encontro romântico ou estabeleçam um compromisso antes da correta avaliação do processo em todos os níveis hierárquicos; o deferimento de uma relação que já está acontecendo pode ser um evento extremamente traumático.
Todo o material requerido deve ser entregue em cinco vias, uma a ser direcionada a cada um dos órgãos competentes, a saber: coração, genitais, cérebro, pulmões e fígado. Parece trabalhoso, mas pense; uma vez aprovado o processo, você pode chamar aquela pessoa para um jantar a luz de velas e simplesmente declarar "amor, eu posso oficialmente gostar de você, e aqui estão os documentos para provar!". Sensual, não?
Todo o material requerido deve ser entregue em cinco vias, uma a ser direcionada a cada um dos órgãos competentes, a saber: coração, genitais, cérebro, pulmões e fígado. Parece trabalhoso, mas pense; uma vez aprovado o processo, você pode chamar aquela pessoa para um jantar a luz de velas e simplesmente declarar "amor, eu posso oficialmente gostar de você, e aqui estão os documentos para provar!". Sensual, não?
lunedì, ottobre 09, 2006
E de repente, eu me meto em uma batalha
[vá-árias questões de estilo por resolver ainda. só pus aqui para me obrigar a fazer algo a respeito]
A metralhadora que eu nunca tinha aprendido a usar e os músculos que eu não tinha, as habilidades que não desenvolvi e uma coragem que não fazia parte da minha personalidade. Todos fluíam artificialmente no meu sangue, naquele instante eu era capaz de tudo. Mantive Jeremias imobilizado ajoelhando-me sobre seu peito. Ergui a mesa como uma barricada contra todos aqueles homens do saco. Enquanto o jovem de bege começava a asfixiar sob meu peso, eu me agachava torcendo para não ser atingido pela saraivada que começava a vir em minha direção. Puxei a metralhadora e tentava de quando em quando erguer-me e contra-atacar, mas eram muito pequenos os intervalos de tempo que me permitiam fazer isso sem perder a cabeça. Eu atingi dois ou três homens do saco. Uma multidão deles ainda avançava inabalada contra mim.
Uma janela no alto, atrás deles, se estilhaça. Muitos param para olhar para traz. Um tiro distante mata o segurança que capturara a menina do palco. Ela está livre dos braços do brutamonte, mas não de seu próprio medo e fica ali, paralisada. Caem lá de fora duas bombas de fumaça no lugar, transformando tudo numa massa cinza cheia de vultos. Nessa oportunidade, usei Jeremias, já inconsciente, de isca: levantei-o por cima da barricada com o meu chapéu em sua cabeça. Funcionou, seus colegas dispararam contra ele, enquanto me posicionei para começar o fuzilamento. A metralhadora gritava com fúria, se mexia e atirava praticamente sozinha, e acertou muito mais Homens-do-Saco do que eu podia imaginar.
Da janela estilhaçada, por cima de mim. Alguma coisa passa voando até o palco. Pareceriam duas aves desajeitadas, se não fossem do tamanho de mulheres. Eu matei muitos homens do saco, o suficiente para cobrir uma fuga, mas ainda parecia haver o suficiente deles para me fazer pagar por isso.
A menina seria preocupação, mas quando a fumaça sobre o palco se dissipou, só restava lá o cadáver do segurança. Não vi mais nem a ela, nem às coisas voadoras misteriosas. Do outro lado do cabaret, algo, talvez uma caixa de força, explode e começa um incêncio. Agarrei Jeremias que ainda tem alguma vida e arrastei-o comigo para fora dali, usando seu corpo como escudo. Só quando sai daquele porão que me dei conta: estava em via pública arrastando um sujeito baleado que provavelmente morreria em segundos!
Os meus perseguidores se tornaram ocupados demais de sua tragédia, e, vendo-os derrotados, concluo que a polícia também não representará problemas. Arrastei meu prisioneiro para um beco uns três quarteirões à frente.
Longe do perigo, minha força começou a esmorecer. Larguei Jeremias no chão, e o puto conseguiu me olhar com um risinho de desprezo. Fico mais cinza do que jamais estive. Minha mão treme. Derrubo a metralhadora que não tenho mais forças para carregar. O filho da puta fala cuspindo um monte de sangue.
"Nós vamos morrer aqui. Os dois. Juntos".
Eu não aceito. Eu não vou morrer com esse otário. Ele tem uma coisa para devolver, e vai me dizer onde ela está! Eu o esbofetearia até obter respostas, mas não tenho força para sequer um tapa. Só quando meu estômago começa a se contorcer gélido, me lembro do presente dos macacos. Uma banana do cacho sobreviveu inteira ao tiroteio, e mordo-a com a última fagulha de energia que minhas mandíbulas ainda têm. Jeremias perde seu desprezo conforme eu começo a recobrar minha cor quando termino a última mordida. Não tenho a mesma pulsão quente que usei no conflito anterior, mas tenho força suficiente para fazê-lo falar.
Dois tapas e ele já está em tanta dor que diz tudo que ainda é capaz. Cada palavra vem temperada com o gosto de ferrugem do seu sangue. Não sinto nenhuma dó.
"Deve estar na triagem ainda... no fim do mês... combustível. Forno."
"Aonde, porra?! Aonde você guardou"
"Na triagem... prédio da corporação. Segundo andar."
Não sei onde é o prédio da corporação, e esse traste acabou de fazer o favor de morrer sem contar. O tal fim do mês é daqui a dois dias, e certamente isso não é tempo de investigar cada corporação na cidade até achar uma gosma vítrea metade azul e metade rosa.
Quero voltar para encontrar Caolho, está exatamente na hora. Talvez ele possa me ajudar mais. Só quando penso no motorista, minha obsessão se desfaz e me dou conta dos fatos. Uma organização misteriosa acaba de me mandar para um lugar perigoso, cheio de Homens-do-Saco armados, sem me dar nenhuma informação. O lugar vira palco de uma batalha feroz comigo no meio, enquanto duas coisas voadoras não identificadas realizam uma missão secreta que não faço idéia de qual seja. Percebi, agora, que fui usado de isca, e que talvez meus novos "aliados" não estejam tão interessados assim na preservação minha vida. O fato de caolho ainda não ter aparecido só agrava as suspeitas. Lá em baixo, os Homens-do-Saco parecem estar se desvencilhando da confusão.
Grande! Sem pistas, sem apoio e muito em breve cercado por uma organização criminosa de pedófilos maníacos com umas belas contas a acertar.
Até que nessa hora o medo de não resgatar meu órgão perdido a tempo não era tão grande assim.
[ah, sim, não entendeu lhufas? capítulos anteriores pra você!
O homem do saco (1)
Sobrevivência (2)
Capítulo três, ainda sem um título decente.
Uma vez em casa de macacos... (4)
De volta à Cidade verdadeira (5)]
A metralhadora que eu nunca tinha aprendido a usar e os músculos que eu não tinha, as habilidades que não desenvolvi e uma coragem que não fazia parte da minha personalidade. Todos fluíam artificialmente no meu sangue, naquele instante eu era capaz de tudo. Mantive Jeremias imobilizado ajoelhando-me sobre seu peito. Ergui a mesa como uma barricada contra todos aqueles homens do saco. Enquanto o jovem de bege começava a asfixiar sob meu peso, eu me agachava torcendo para não ser atingido pela saraivada que começava a vir em minha direção. Puxei a metralhadora e tentava de quando em quando erguer-me e contra-atacar, mas eram muito pequenos os intervalos de tempo que me permitiam fazer isso sem perder a cabeça. Eu atingi dois ou três homens do saco. Uma multidão deles ainda avançava inabalada contra mim.
Uma janela no alto, atrás deles, se estilhaça. Muitos param para olhar para traz. Um tiro distante mata o segurança que capturara a menina do palco. Ela está livre dos braços do brutamonte, mas não de seu próprio medo e fica ali, paralisada. Caem lá de fora duas bombas de fumaça no lugar, transformando tudo numa massa cinza cheia de vultos. Nessa oportunidade, usei Jeremias, já inconsciente, de isca: levantei-o por cima da barricada com o meu chapéu em sua cabeça. Funcionou, seus colegas dispararam contra ele, enquanto me posicionei para começar o fuzilamento. A metralhadora gritava com fúria, se mexia e atirava praticamente sozinha, e acertou muito mais Homens-do-Saco do que eu podia imaginar.
Da janela estilhaçada, por cima de mim. Alguma coisa passa voando até o palco. Pareceriam duas aves desajeitadas, se não fossem do tamanho de mulheres. Eu matei muitos homens do saco, o suficiente para cobrir uma fuga, mas ainda parecia haver o suficiente deles para me fazer pagar por isso.
A menina seria preocupação, mas quando a fumaça sobre o palco se dissipou, só restava lá o cadáver do segurança. Não vi mais nem a ela, nem às coisas voadoras misteriosas. Do outro lado do cabaret, algo, talvez uma caixa de força, explode e começa um incêncio. Agarrei Jeremias que ainda tem alguma vida e arrastei-o comigo para fora dali, usando seu corpo como escudo. Só quando sai daquele porão que me dei conta: estava em via pública arrastando um sujeito baleado que provavelmente morreria em segundos!
Os meus perseguidores se tornaram ocupados demais de sua tragédia, e, vendo-os derrotados, concluo que a polícia também não representará problemas. Arrastei meu prisioneiro para um beco uns três quarteirões à frente.
Longe do perigo, minha força começou a esmorecer. Larguei Jeremias no chão, e o puto conseguiu me olhar com um risinho de desprezo. Fico mais cinza do que jamais estive. Minha mão treme. Derrubo a metralhadora que não tenho mais forças para carregar. O filho da puta fala cuspindo um monte de sangue.
"Nós vamos morrer aqui. Os dois. Juntos".
Eu não aceito. Eu não vou morrer com esse otário. Ele tem uma coisa para devolver, e vai me dizer onde ela está! Eu o esbofetearia até obter respostas, mas não tenho força para sequer um tapa. Só quando meu estômago começa a se contorcer gélido, me lembro do presente dos macacos. Uma banana do cacho sobreviveu inteira ao tiroteio, e mordo-a com a última fagulha de energia que minhas mandíbulas ainda têm. Jeremias perde seu desprezo conforme eu começo a recobrar minha cor quando termino a última mordida. Não tenho a mesma pulsão quente que usei no conflito anterior, mas tenho força suficiente para fazê-lo falar.
Dois tapas e ele já está em tanta dor que diz tudo que ainda é capaz. Cada palavra vem temperada com o gosto de ferrugem do seu sangue. Não sinto nenhuma dó.
"Deve estar na triagem ainda... no fim do mês... combustível. Forno."
"Aonde, porra?! Aonde você guardou"
"Na triagem... prédio da corporação. Segundo andar."
Não sei onde é o prédio da corporação, e esse traste acabou de fazer o favor de morrer sem contar. O tal fim do mês é daqui a dois dias, e certamente isso não é tempo de investigar cada corporação na cidade até achar uma gosma vítrea metade azul e metade rosa.
Quero voltar para encontrar Caolho, está exatamente na hora. Talvez ele possa me ajudar mais. Só quando penso no motorista, minha obsessão se desfaz e me dou conta dos fatos. Uma organização misteriosa acaba de me mandar para um lugar perigoso, cheio de Homens-do-Saco armados, sem me dar nenhuma informação. O lugar vira palco de uma batalha feroz comigo no meio, enquanto duas coisas voadoras não identificadas realizam uma missão secreta que não faço idéia de qual seja. Percebi, agora, que fui usado de isca, e que talvez meus novos "aliados" não estejam tão interessados assim na preservação minha vida. O fato de caolho ainda não ter aparecido só agrava as suspeitas. Lá em baixo, os Homens-do-Saco parecem estar se desvencilhando da confusão.
Grande! Sem pistas, sem apoio e muito em breve cercado por uma organização criminosa de pedófilos maníacos com umas belas contas a acertar.
Até que nessa hora o medo de não resgatar meu órgão perdido a tempo não era tão grande assim.
[ah, sim, não entendeu lhufas? capítulos anteriores pra você!
O homem do saco (1)
Sobrevivência (2)
Capítulo três, ainda sem um título decente.
Uma vez em casa de macacos... (4)
De volta à Cidade verdadeira (5)]
martedì, aprile 11, 2006
De volta à cidade verdadeira
Caolho abriu a porta do passageiro para que eu entrasse. O interior daquele carro parecia o lugar mais seguro de todo o mundo, dada a espessura do capô, a firmeza da estrutura e a potência do motor. Era quase como se viajasse num tanque de guerra. Ele deu a partida e acendeu um cigarro mantendo as janelas fechadas, fiz uma careta ao me incomodar com a fumaça, ele me encarou com reprovação. Passado um tempo, dando voltas pouco compreensivas naquele bairro irreal, o silêncio me constrangeu. Perguntei.
- Há quanto tempo você está nessa?
- Não estou. Nunca estive. Só faço alguns favores.
- Certo. Como eu posso te chamar?
- Você disse seu nome para alguém? Até agora? Uma vez?
- Não.
- Ainda bem. Pode me chamar de Caolho, como já está fazendo por dentro.
Apagou o cigarro no cinzeiro da porta e prosseguiu o caminho.
Depois de meia hora, saímos dos prédios tortos e da geografia desproporcionada. Chegamos numa parte da cidade cuja existência real eu já era capaz de admitir, embora todas as construções parecessem extremamente antigas e sombrias. Era o centro, era noite e isso era de se esperar, mas mesmo assim, dessa vez, meus olhos viam algo a mais no escuro. As sombras das sombras, acho. Novos tons de preto transformaram minha cidade numa imitação de Gotham. Caolho desacelerou e entrou em estado de alerta. Desligou os faróis e conduziu o carro com uma leveza e silêncio inesperados. Eu sempre tive por irracional o meu medo de silêncio, mas ao assistir aquele motorista espalhafatoso procurando ao máximo não ser notado, eu finalmente entendi qual era a origem nada tola desse temor. Num mundo onde não se crê em tranqüilidade, a quietude indica perigo.
Entramos num beco obscuro, com rua ainda de paralelepípedos. Não circulavam por ele nem as figuras noturnas que perambulam na região. Havia uma escada que descia para algo, que poderia ser um clube ou bordel. Caolho me orientou.
- Põe o chapéu e abaixa a aba da frente, pra sombra esconder o seu rosto. Diz na porta que as ações da Varig vão subir; vão te dizer 'você tá é louco'; diga que não, que veio pela bebida, e você está dentro. Não ache que foi fácil planejar isso, quatro pessoas quase morreram pra você saber a senha de hoje. Lá dentro não converse muito, encontre o desgraçado que te sacaneou, aposto que ele estará bebendo uísque. Você vai saber o que fazer dessa hora em diante. Me encontre de novo aqui fora em exata meia hora. Eu não vou esperar nem me atrasar. Não estarei aqui se você vier antes. Exata meia hora, ou você vai ter que se virar sozinho. Quatro pessoas quase morreram para te ajudar, e eu não serei o primeiro a conseguir.
Segui a risca as instruções do Caolho para adentrar aquele espaço. Era horrendo. Parecia um Cabaré cujo glamour fora drenado há décadas, trocado por uma concepção patética de higiene. Toda a madeira dos móveis era ridiculamente nova, envernizada, clara e homogênea. As lâmpadas eram todas econômicas, brancas azuladas. Algumas dezenas de Homens do Saco (também do sexo feminino) bebiam recatadamente e conversavam sem fazer muito barulho. O disfarce era relativamente eficiente, pois eles não pareciam se importunar muito com minha presença. A maioria lá fazia o estilo jovem executivo, com ternos listrados, gravatas, tailleurs e coques reluzentes. Algumas exceções interagiam livremente, de igual para igual no ambiente. Um ou dois homens do saco mais tradicionais, trajando o clássico mendigo esfarrapado, uma velha cigana acolá, um mestre de picadeiro escondido no canto e dessa forma minha aparência não era tão gritante.
Dei duas voltas no lugar, na segunda pedi uma gin-tônica no balcão para não parecer suspeito. Finalmente, notei Jeremias sentado numa mesa próxima ao palco vazio, olhando fixamente para a cortina de veludo. Levou à mão as coxas, que tremiam, enquanto batia o pé nervosamente no chão. Estava tão concentrado em sua ansiedade que não notou quando sentei a mesa logo atrás. Fiquei ali, observando-o por alguns minutos, imaginando o que poderia fazer a seu respeito.
Luzes se acenderam sobre o palco; às da casa se apagaram. Os Homens do Saco se aquietaram e voltaram seus olhos para a atração principal. Cortina subindo, revela uma menina, uns oito anos, vestidinho rosa com babados bucólicos, cachos que só uma avó poderia amar, e a mais terrível expressão de pânico. Uma corda amarrada em dois postes mecânicos começou a girar como se estivesse sendo conduzida por outras duas garotas; o sistema de som do lugar começou a tocar um coro de crianças desafinadas. A estrela, quase em desespero, começa a pular corda. A música se torna insuportável.
Um homem bateu à minha porta
(Eu começo a achar tudo aquilo ridículo demais)
e eu a-
(Então noto o olhar, o prazer pérfido de Jeremias e todos os homens do saco. Uma mulher de tailleur lambe os beiços.)
-bri!
(A metralhadora escondida junto ao meu peito parece ficar quente)
Senhoras e senhores
(Minhas pernas me erguem sozinhas, e se flexionam em prontidão)
Pulem num pé só!
(A menina obedece à canção. Aquele calor da metralhadora se transforma em fúria dentro de mim)
Senhoras e senhores
(Todo o meu corpo esquenta e meus músculos se tensionam. É como se tivesse muito mais energia fluindo pelo meu corpo do que deveria.)
Encostem a mão no chão.
(Eu salto para perto de Jeremias.)
Senhoras e senhores
(Jogo a mesa sobre ele, com uma força que nunca tive. O desgraçado cai no chão imóvel.)
Dêem uma rodadinha
(Todas as atenções se voltam para mim.)
E vá
(A menina corre, tentando fugir do palco)
Pro olho
(Os homens do saco se erguem e vem em minha direção. Alguns levantam pistolas. Estou cercado. A menina esbarra num segurança, que a segura refém sobre o palco.)
Da rua!
- Há quanto tempo você está nessa?
- Não estou. Nunca estive. Só faço alguns favores.
- Certo. Como eu posso te chamar?
- Você disse seu nome para alguém? Até agora? Uma vez?
- Não.
- Ainda bem. Pode me chamar de Caolho, como já está fazendo por dentro.
Apagou o cigarro no cinzeiro da porta e prosseguiu o caminho.
Depois de meia hora, saímos dos prédios tortos e da geografia desproporcionada. Chegamos numa parte da cidade cuja existência real eu já era capaz de admitir, embora todas as construções parecessem extremamente antigas e sombrias. Era o centro, era noite e isso era de se esperar, mas mesmo assim, dessa vez, meus olhos viam algo a mais no escuro. As sombras das sombras, acho. Novos tons de preto transformaram minha cidade numa imitação de Gotham. Caolho desacelerou e entrou em estado de alerta. Desligou os faróis e conduziu o carro com uma leveza e silêncio inesperados. Eu sempre tive por irracional o meu medo de silêncio, mas ao assistir aquele motorista espalhafatoso procurando ao máximo não ser notado, eu finalmente entendi qual era a origem nada tola desse temor. Num mundo onde não se crê em tranqüilidade, a quietude indica perigo.
Entramos num beco obscuro, com rua ainda de paralelepípedos. Não circulavam por ele nem as figuras noturnas que perambulam na região. Havia uma escada que descia para algo, que poderia ser um clube ou bordel. Caolho me orientou.
- Põe o chapéu e abaixa a aba da frente, pra sombra esconder o seu rosto. Diz na porta que as ações da Varig vão subir; vão te dizer 'você tá é louco'; diga que não, que veio pela bebida, e você está dentro. Não ache que foi fácil planejar isso, quatro pessoas quase morreram pra você saber a senha de hoje. Lá dentro não converse muito, encontre o desgraçado que te sacaneou, aposto que ele estará bebendo uísque. Você vai saber o que fazer dessa hora em diante. Me encontre de novo aqui fora em exata meia hora. Eu não vou esperar nem me atrasar. Não estarei aqui se você vier antes. Exata meia hora, ou você vai ter que se virar sozinho. Quatro pessoas quase morreram para te ajudar, e eu não serei o primeiro a conseguir.
Segui a risca as instruções do Caolho para adentrar aquele espaço. Era horrendo. Parecia um Cabaré cujo glamour fora drenado há décadas, trocado por uma concepção patética de higiene. Toda a madeira dos móveis era ridiculamente nova, envernizada, clara e homogênea. As lâmpadas eram todas econômicas, brancas azuladas. Algumas dezenas de Homens do Saco (também do sexo feminino) bebiam recatadamente e conversavam sem fazer muito barulho. O disfarce era relativamente eficiente, pois eles não pareciam se importunar muito com minha presença. A maioria lá fazia o estilo jovem executivo, com ternos listrados, gravatas, tailleurs e coques reluzentes. Algumas exceções interagiam livremente, de igual para igual no ambiente. Um ou dois homens do saco mais tradicionais, trajando o clássico mendigo esfarrapado, uma velha cigana acolá, um mestre de picadeiro escondido no canto e dessa forma minha aparência não era tão gritante.
Dei duas voltas no lugar, na segunda pedi uma gin-tônica no balcão para não parecer suspeito. Finalmente, notei Jeremias sentado numa mesa próxima ao palco vazio, olhando fixamente para a cortina de veludo. Levou à mão as coxas, que tremiam, enquanto batia o pé nervosamente no chão. Estava tão concentrado em sua ansiedade que não notou quando sentei a mesa logo atrás. Fiquei ali, observando-o por alguns minutos, imaginando o que poderia fazer a seu respeito.
Luzes se acenderam sobre o palco; às da casa se apagaram. Os Homens do Saco se aquietaram e voltaram seus olhos para a atração principal. Cortina subindo, revela uma menina, uns oito anos, vestidinho rosa com babados bucólicos, cachos que só uma avó poderia amar, e a mais terrível expressão de pânico. Uma corda amarrada em dois postes mecânicos começou a girar como se estivesse sendo conduzida por outras duas garotas; o sistema de som do lugar começou a tocar um coro de crianças desafinadas. A estrela, quase em desespero, começa a pular corda. A música se torna insuportável.
Um homem bateu à minha porta
(Eu começo a achar tudo aquilo ridículo demais)
e eu a-
(Então noto o olhar, o prazer pérfido de Jeremias e todos os homens do saco. Uma mulher de tailleur lambe os beiços.)
-bri!
(A metralhadora escondida junto ao meu peito parece ficar quente)
Senhoras e senhores
(Minhas pernas me erguem sozinhas, e se flexionam em prontidão)
Pulem num pé só!
(A menina obedece à canção. Aquele calor da metralhadora se transforma em fúria dentro de mim)
Senhoras e senhores
(Todo o meu corpo esquenta e meus músculos se tensionam. É como se tivesse muito mais energia fluindo pelo meu corpo do que deveria.)
Encostem a mão no chão.
(Eu salto para perto de Jeremias.)
Senhoras e senhores
(Jogo a mesa sobre ele, com uma força que nunca tive. O desgraçado cai no chão imóvel.)
Dêem uma rodadinha
(Todas as atenções se voltam para mim.)
E vá
(A menina corre, tentando fugir do palco)
Pro olho
(Os homens do saco se erguem e vem em minha direção. Alguns levantam pistolas. Estou cercado. A menina esbarra num segurança, que a segura refém sobre o palco.)
Da rua!
giovedì, marzo 30, 2006
Uma vez em casa de macacos...
As velhas, longas e escuras escadarias de madeira não representaram dificuldade. O ranger dos degraus e as teias de aranha nada eram comparadas a sensação de que finalmente estava chegando em algum lugar. A porta do apartamento indicado um dia tinha sido de um vermelho radiante, mas apenas guardava alguns vestígios disso. Abriu-a, obviamente, um macaco.
Era de pelagem preta, um pouco maior do que eu. Vestia roupas todas brancas, incluindo sapatos e um jaleco, e trazia um estetoscópio pendurado em volta do pescoço. Cumprimentou-me educadamente, me pediu para entrar e me sentar no sofá. Tudo na casa era vermelho vivo ou amarelo, algumas coisas desbotadas pelo tempo ou por poeira, mas se sentia as cores vibrantes como o conceito decorativo do lugar. Não nos apresentamos. Ele chamou Clarice. Clarice era outra macaca de pelo negro, lábios cuidadosamente retocados com batom, vestindo um tailleur elegante e feminino. Examinou-me de cima a baixo com o olhar e declarou, "Primeiro ele deverá ir para o banho, querido, tentar ganhar alguma cor". Ela então me conduziu por um pequeno corredor até o cômodo onde estava uma antiga banheira de porcelana toda já rachada, com uma mistura quente e convidativa de água e sabão. Ela me ajudou a me despir e pendurou as minhas roupas, e pediu que eu entrasse calmamente na água.
Quando o fiz, senti um calor completamente novo. Dentro dos ossos. Não um calor imenso, mas um abraço confortável que fazia meu pulmão respirar e minhas veias pulsarem. Ausentou-se por uns instantes e trouxe um prato de sopa meio alaranjada. Com a colher, me alimentava como se eu fosse um bebê. A sopa era picante, parecia mais um creme de mostarda e cury. Ela recostou minha cabeça num travesseiro inflável e dormi confortavelmente, até o amanhecer, com o corpo imerso naquela banheira. No dia seguinte, quando eu estava começando a aceitar o fato de que o sol entrava pela janela, o macaco me despertou nervoso, reclamando que eu precisava levantar logo para os exames. Levantei meio bamba e com a pele toda enrugada e o segui para a sala ao lado. Deitei sobre uma mesa laboratorial. Ele pressionou meu abdome, tateando-o. Então, colocou sobre mim uma espécie de aparelho de raios-X esquisitíssima e observou-a por uma telinha.
- Você tem sorte, Rapaz! - ele disse, mostrando uma chapa que tirou do vazio no meu interior - Ele arrancou isso, mas o intestino não se acomodou, e ainda tem o espaço certo para o re-implante.
- Mas afinal de contas, o que ele arrancou de mim?! - não aceitei a explicação pela metade.
- Você viu, não viu?
- Vi, mas o que era aquilo?
- Não tem nome. Mas, se você viu e chegou até aqui, acho que você sabe o que é.
E, de certa forma, eu sabia.
*
Já vestido, com mais rubor na pele, esperei no sofá enquanto meus benfeitores se reuniam num último cômodo decidindo o meu destino. A porta do apartamento se abriu e passou uma menina de uns quatro anos, com trancinhas de chocolate, vestindo macacãozinho jeans e blusa cor de rosa. Ela pulava corda e cantarolava.
"Um homem bateu à minha porta
e eu
abri!
Senhoras e senhores...
Nesse momento, ela parou de pular, se concentrou um pouco, fez cara de decepção, largou a corda no chão e correu para fora do apartamento. De longe, a ouvi cantar outra canção e conclui que deveria estar bem. Acho que ela só demorou em perceber que a brincadeira que ela praticava requeria outros amigos.
Clarice e o macaco médico vieram até mim e me pediram que entrasse na sala de reunião. Fecharam a porta e me deixaram sozinho com um sujeito (humano) sentado atrás de uma grande mesa de madeira nobre. Havia um abajur clássico de cúpula verde esmeralda iluminando solitário todo o lugar. O homem fumava charuto, e fora por não ter uma viseira, pareceria muito um antigo editor chefe de jornal metropolitano. Olhou serenamente para mim e começou.
- Ninguém aqui sabe seu nome, não é mesmo?
- Não.
- Então eu o chamarei de Cor, porque eles exageraram no tratamento e você parece uma tevê com o ajuste de cor exagerado.
- E eu o chamarei de Charuto.
- Muito justo. Você parece ter entendido.
- Quem era a menina?
- Nós estamos cuidando dela, bem como estamos de você. Vocês têm os mesmos inimigos, e nós também. Isso te basta?
- Por enquanto, sim.
Charuto olhou sério para mim. Ele viu que eu também estranhava toda essa segurança que saia de minha boca. Devia ser efeito do tal tratamento que os macacos me deram. Sorriu.
- Os nossos cuidados não podem realmente substituir o que você perdeu. Logo você começará a definhar de novo, a não ser que encontre seu órgão e faça o re-implante.
- E como eu faço isso?
Apontou para minha roupa, especialmente para o volume que a metralhadora fazia guardada dentro dela.
- O sobretudo você já tinha. A metralhadora eu te dei. Saindo daqui, não peça nada aos macacos; eles te darão uma terceira coisa. Você vai precisar dos três e de mais coisas que vai achar pelo caminho. Agora, recomendo que você deixe esse lugar e agradeça pela hospitalidade. Te vejo num breve futuro, cor.
Disse isso e apagou o abajur. A única coisa que eu ainda conseguia ver era a moldura de luz em torno da porta. Sai por ela, encontrei os macacos. Disse lhes que precisava procurar o que era meu. Eles me deram então um chapéu de lã alaranjado, para me proteger da friagem. Clarice disse que essa era a terceira coisa. O médico então entregou também um cacho com sete bananas. Eu deveria comer uma por dia, sempre na mesma hora do dia. Acabado o cacho, eu precisava voltar imediatamente para manter o tratamento. Era a única chance que tinha de continuar vivo.
Agradeci mais uma vez e desci as escadas, só então pensando que eu realmente não fazia idéia de para onde ir. Não sabia nem ao mesmo como deixar aquele lado insensato da cidade. À porta do prédio, então, avistei, ao lado de um opala preto vistoso e inacreditavelmente inteiro e forte, o motorista caolho, que parecia estar me esperando.
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(capítulo quatro já do negócio. Já? finalmente. Pra entender melhor, 1, 2 e 3.)
Era de pelagem preta, um pouco maior do que eu. Vestia roupas todas brancas, incluindo sapatos e um jaleco, e trazia um estetoscópio pendurado em volta do pescoço. Cumprimentou-me educadamente, me pediu para entrar e me sentar no sofá. Tudo na casa era vermelho vivo ou amarelo, algumas coisas desbotadas pelo tempo ou por poeira, mas se sentia as cores vibrantes como o conceito decorativo do lugar. Não nos apresentamos. Ele chamou Clarice. Clarice era outra macaca de pelo negro, lábios cuidadosamente retocados com batom, vestindo um tailleur elegante e feminino. Examinou-me de cima a baixo com o olhar e declarou, "Primeiro ele deverá ir para o banho, querido, tentar ganhar alguma cor". Ela então me conduziu por um pequeno corredor até o cômodo onde estava uma antiga banheira de porcelana toda já rachada, com uma mistura quente e convidativa de água e sabão. Ela me ajudou a me despir e pendurou as minhas roupas, e pediu que eu entrasse calmamente na água.
Quando o fiz, senti um calor completamente novo. Dentro dos ossos. Não um calor imenso, mas um abraço confortável que fazia meu pulmão respirar e minhas veias pulsarem. Ausentou-se por uns instantes e trouxe um prato de sopa meio alaranjada. Com a colher, me alimentava como se eu fosse um bebê. A sopa era picante, parecia mais um creme de mostarda e cury. Ela recostou minha cabeça num travesseiro inflável e dormi confortavelmente, até o amanhecer, com o corpo imerso naquela banheira. No dia seguinte, quando eu estava começando a aceitar o fato de que o sol entrava pela janela, o macaco me despertou nervoso, reclamando que eu precisava levantar logo para os exames. Levantei meio bamba e com a pele toda enrugada e o segui para a sala ao lado. Deitei sobre uma mesa laboratorial. Ele pressionou meu abdome, tateando-o. Então, colocou sobre mim uma espécie de aparelho de raios-X esquisitíssima e observou-a por uma telinha.
- Você tem sorte, Rapaz! - ele disse, mostrando uma chapa que tirou do vazio no meu interior - Ele arrancou isso, mas o intestino não se acomodou, e ainda tem o espaço certo para o re-implante.
- Mas afinal de contas, o que ele arrancou de mim?! - não aceitei a explicação pela metade.
- Você viu, não viu?
- Vi, mas o que era aquilo?
- Não tem nome. Mas, se você viu e chegou até aqui, acho que você sabe o que é.
E, de certa forma, eu sabia.
*
Já vestido, com mais rubor na pele, esperei no sofá enquanto meus benfeitores se reuniam num último cômodo decidindo o meu destino. A porta do apartamento se abriu e passou uma menina de uns quatro anos, com trancinhas de chocolate, vestindo macacãozinho jeans e blusa cor de rosa. Ela pulava corda e cantarolava.
"Um homem bateu à minha porta
e eu
abri!
Senhoras e senhores...
Nesse momento, ela parou de pular, se concentrou um pouco, fez cara de decepção, largou a corda no chão e correu para fora do apartamento. De longe, a ouvi cantar outra canção e conclui que deveria estar bem. Acho que ela só demorou em perceber que a brincadeira que ela praticava requeria outros amigos.
Clarice e o macaco médico vieram até mim e me pediram que entrasse na sala de reunião. Fecharam a porta e me deixaram sozinho com um sujeito (humano) sentado atrás de uma grande mesa de madeira nobre. Havia um abajur clássico de cúpula verde esmeralda iluminando solitário todo o lugar. O homem fumava charuto, e fora por não ter uma viseira, pareceria muito um antigo editor chefe de jornal metropolitano. Olhou serenamente para mim e começou.
- Ninguém aqui sabe seu nome, não é mesmo?
- Não.
- Então eu o chamarei de Cor, porque eles exageraram no tratamento e você parece uma tevê com o ajuste de cor exagerado.
- E eu o chamarei de Charuto.
- Muito justo. Você parece ter entendido.
- Quem era a menina?
- Nós estamos cuidando dela, bem como estamos de você. Vocês têm os mesmos inimigos, e nós também. Isso te basta?
- Por enquanto, sim.
Charuto olhou sério para mim. Ele viu que eu também estranhava toda essa segurança que saia de minha boca. Devia ser efeito do tal tratamento que os macacos me deram. Sorriu.
- Os nossos cuidados não podem realmente substituir o que você perdeu. Logo você começará a definhar de novo, a não ser que encontre seu órgão e faça o re-implante.
- E como eu faço isso?
Apontou para minha roupa, especialmente para o volume que a metralhadora fazia guardada dentro dela.
- O sobretudo você já tinha. A metralhadora eu te dei. Saindo daqui, não peça nada aos macacos; eles te darão uma terceira coisa. Você vai precisar dos três e de mais coisas que vai achar pelo caminho. Agora, recomendo que você deixe esse lugar e agradeça pela hospitalidade. Te vejo num breve futuro, cor.
Disse isso e apagou o abajur. A única coisa que eu ainda conseguia ver era a moldura de luz em torno da porta. Sai por ela, encontrei os macacos. Disse lhes que precisava procurar o que era meu. Eles me deram então um chapéu de lã alaranjado, para me proteger da friagem. Clarice disse que essa era a terceira coisa. O médico então entregou também um cacho com sete bananas. Eu deveria comer uma por dia, sempre na mesma hora do dia. Acabado o cacho, eu precisava voltar imediatamente para manter o tratamento. Era a única chance que tinha de continuar vivo.
Agradeci mais uma vez e desci as escadas, só então pensando que eu realmente não fazia idéia de para onde ir. Não sabia nem ao mesmo como deixar aquele lado insensato da cidade. À porta do prédio, então, avistei, ao lado de um opala preto vistoso e inacreditavelmente inteiro e forte, o motorista caolho, que parecia estar me esperando.
==================================================================================
(capítulo quatro já do negócio. Já? finalmente. Pra entender melhor, 1, 2 e 3.)
lunedì, novembre 28, 2005
Sobrevivência
(isso é uma continuação. você não viu a primeira parte?)
Acordei uns três dias depois, era quinta feira. Dentro de mim tudo doía. Estava febril e fraco, na minha cama. A família preocupada em volta. Ninguém podia entender o que tinha me acontecido. Expliquei minha versão dos fatos. O médico disse que tal órgão não existia, acho que conversaram sobre a possibilidade de eu estar alucinando, me testaram em busca de todo tipo de drogas - passei uma semana arrastado de casa para o hospital e então de volta, e nada. Minha mãe trazia olheiras de preocupação, e cada vez que eu pensava em explicar o que aconteceu ela destava a chorar. Fiquei puto. Fodido mesmo, todo mundo dizendo que queria me curar e ninguém parava um segundo pra me ouvir. Levantei uma noite e fui embora. Essa raiva me deu uma energia provisória importante para tudo o que aconteceu a seguir; era como se por alguns instantes ela pudesse substituir o que eu tinha perdido.
Era fevereiro, mas eu sentia muito frio. Guardei tudo que conseguia carregar numa mala e vesti um sobretudo berrante, de uma fantasia de Dick Tracy que uma vez eu tentei usar no carnaval. Saí de noite, sem fazer idéia de onde ir, com os trocados que apanhei pelos cantos da casa. Toda certeza que eu tinha era uma só: era preciso achar o homem do saco e recuperar o que era meu. Pista eu não tinha nenhuma, mas esse tipo de coisa é praticamente desnecessário. Fui para o centro, que é onde gente perdida se perde mais até chegar onde não esperava.
Passei uns três dias na base da raiva e dos trocados, sobrevivendo sei lá como a tudo isso, dividindo o espaço com mendigos. Comer no centro é bem barato e não vivi tão mal assim. Eu lia dentro dos sebos e nessas horas a vida nem parecia doer; conheci todos os hits de camelôs e achei que podia ficar ali para sempre. Mas a energia que eu tinha conquistado era temporária, e começou a se esvair. Milha pele que andava vermelha perdeu toda a cor e eu agora era um tom de cinza ambulante. Se fazia necessária uma atitude rápida, mas de fato, nada que eu soubesse me ajudava, nenhum médico, nenhum amigo, nem mesmo um mendigo que disse que foi pai de santo.
Eu ia morrer tão rápido que nem sabia como.
E o porra do homem do saco ia ficar rindo com a última parte viva de mim numa estante de troféus.
*
Os oráculos de rua são assim. Eles passam pelo meio das histórias sem fazer sentido. Eles pegam nossa convicção que nada se perde e nada se cria e tomam na sopa; se tudo se transforma, não é por essa ou por aquela lei da física agiu, é porque um deles esteve presente. Pelo menos na cidade.
A minha foi uma velhota de aspecto horrendo e fedor inacreditável. Cabelos brancos e longos e quase nenhum dente, roupas indicando a mais longa mendicância, parou para comer uma banana do meu lado. Quase vomitei tudo o que restava das minhas tripas ao assistir ao gesto horrível de mastigação escancarada no qual ela insistia. A banana se amassando contra a gengiva escurecida de sujeira, e meu esôfago pulsava para fora.
Ela me disse:
- Tu tá morrendo, filho! Vai pra casa que eles te curam.
Me lembrei de que não poderia voltar a minha casa. Pensei em discutir com ela. A sujeita foi mais rápida.
- Não a da tua mãe. Não a tua que ainda não existe. Vai pra casa dos macacos.
"Ah, sua velha maluca, se eu quisesse conversar com você, gritava! Que tipo de loucura é essa que você acha que existe uma casa dos macacos e que podem ter eles a ver com me curar?"
Ao invés de ler meus pensamentos de forma tão clara como fez da primeira vez, a velha largou a casca da banana do meu lado e foi andando embora até sumir. Alguma coisa me impediu de segui-la, por mais que minha vontade fosse entender a insanidade dessa mulher. Vi que ela deixou caida perto do meu pé a casca de banana, e sob ela, desenhado num guardanapo engordurado de pastel, um mapinha.
Acordei uns três dias depois, era quinta feira. Dentro de mim tudo doía. Estava febril e fraco, na minha cama. A família preocupada em volta. Ninguém podia entender o que tinha me acontecido. Expliquei minha versão dos fatos. O médico disse que tal órgão não existia, acho que conversaram sobre a possibilidade de eu estar alucinando, me testaram em busca de todo tipo de drogas - passei uma semana arrastado de casa para o hospital e então de volta, e nada. Minha mãe trazia olheiras de preocupação, e cada vez que eu pensava em explicar o que aconteceu ela destava a chorar. Fiquei puto. Fodido mesmo, todo mundo dizendo que queria me curar e ninguém parava um segundo pra me ouvir. Levantei uma noite e fui embora. Essa raiva me deu uma energia provisória importante para tudo o que aconteceu a seguir; era como se por alguns instantes ela pudesse substituir o que eu tinha perdido.
Era fevereiro, mas eu sentia muito frio. Guardei tudo que conseguia carregar numa mala e vesti um sobretudo berrante, de uma fantasia de Dick Tracy que uma vez eu tentei usar no carnaval. Saí de noite, sem fazer idéia de onde ir, com os trocados que apanhei pelos cantos da casa. Toda certeza que eu tinha era uma só: era preciso achar o homem do saco e recuperar o que era meu. Pista eu não tinha nenhuma, mas esse tipo de coisa é praticamente desnecessário. Fui para o centro, que é onde gente perdida se perde mais até chegar onde não esperava.
Passei uns três dias na base da raiva e dos trocados, sobrevivendo sei lá como a tudo isso, dividindo o espaço com mendigos. Comer no centro é bem barato e não vivi tão mal assim. Eu lia dentro dos sebos e nessas horas a vida nem parecia doer; conheci todos os hits de camelôs e achei que podia ficar ali para sempre. Mas a energia que eu tinha conquistado era temporária, e começou a se esvair. Milha pele que andava vermelha perdeu toda a cor e eu agora era um tom de cinza ambulante. Se fazia necessária uma atitude rápida, mas de fato, nada que eu soubesse me ajudava, nenhum médico, nenhum amigo, nem mesmo um mendigo que disse que foi pai de santo.
Eu ia morrer tão rápido que nem sabia como.
E o porra do homem do saco ia ficar rindo com a última parte viva de mim numa estante de troféus.
*
Os oráculos de rua são assim. Eles passam pelo meio das histórias sem fazer sentido. Eles pegam nossa convicção que nada se perde e nada se cria e tomam na sopa; se tudo se transforma, não é por essa ou por aquela lei da física agiu, é porque um deles esteve presente. Pelo menos na cidade.
A minha foi uma velhota de aspecto horrendo e fedor inacreditável. Cabelos brancos e longos e quase nenhum dente, roupas indicando a mais longa mendicância, parou para comer uma banana do meu lado. Quase vomitei tudo o que restava das minhas tripas ao assistir ao gesto horrível de mastigação escancarada no qual ela insistia. A banana se amassando contra a gengiva escurecida de sujeira, e meu esôfago pulsava para fora.
Ela me disse:
- Tu tá morrendo, filho! Vai pra casa que eles te curam.
Me lembrei de que não poderia voltar a minha casa. Pensei em discutir com ela. A sujeita foi mais rápida.
- Não a da tua mãe. Não a tua que ainda não existe. Vai pra casa dos macacos.
"Ah, sua velha maluca, se eu quisesse conversar com você, gritava! Que tipo de loucura é essa que você acha que existe uma casa dos macacos e que podem ter eles a ver com me curar?"
Ao invés de ler meus pensamentos de forma tão clara como fez da primeira vez, a velha largou a casca da banana do meu lado e foi andando embora até sumir. Alguma coisa me impediu de segui-la, por mais que minha vontade fosse entender a insanidade dessa mulher. Vi que ela deixou caida perto do meu pé a casca de banana, e sob ela, desenhado num guardanapo engordurado de pastel, um mapinha.
giovedì, novembre 24, 2005
O Homem do Saco (Isso é um "capítulo" um de um lance maior)
- "Um homem bateu a minha porta e eu abri!"...Não lembro como continua essa musiquinha que as meninas cantam pra pular corda, mas te digo, rapaz, sei muito bem o que esses versos querem dizer. Querem dizer que elas são umas putinhas, todas umas putinhas! Um homem, e elas abriram. E você sabe o que ele fez, todos nós sabemos, afinal, não somos homens? As vadias? As vadias gostaram! Gozaram até o sol nascer. E saíram para cantar ao amanhecer, e pular corda e dizer que deram à noite toda, como se fosse a coisa mais bonita do mundo. Vaquinhas de merda. Você está com medo. Suando e tremendo, coitado. É porque eu estou falando isso? Só porque você abriu a porta quando eu bati? Ou é por causa desse saco de pano imenso nas minhas costas?
O Homem-do-Saco estava num terno bege de corte elegante, e trazia o saco combinando. Eu fiquei paralisado de medo. Tentei me defender, mas não funcionou. Ele enfiou a mão pela minha boca, desceu com seu braço pelas minhas entranhas, eu ali, todo aberto, paralisado, deformado com aquela violência. Ele procurava alguma coisa perdida entre meus rins e os intestinos (impressionante descobrir como a gente sente tudo isso por dentro). O filha da puta ficava sorrindo com uns dentes esgarçados embaixo daquele bigodinho loiro e ralo. Pela cara, não devia ter nem cinco anos mais que meus vinte. E ainda assim, já andava com um bigodinho ridículo e um terno bege de corte alinhado, o maldito engomadinho. Aposto que eu era a última coisa entre ele e sua meta comercial do ano; que o chefe do maldito ia falar "parabéns, Jeremias, ninguém preenche a cota tão rápido desde o rapto de todas as criancinhas de Hammelin! Você tem um ótimo futuro como Homem-do-Saco."
Jeremias, Homem-do-Saco, isso mesmo. Nem fez questão de se apresentar, mas enquanto ele sedento vasculhava minhas entranhas tive bastante tempro pra ver o crachá ridículo, que dependurado recaia sobre meu rosto. Achou algo. Puxou com muita força, senti o tranco dentro de mim; mas nada aconteceu. Aparentemente estava bem fixado lá, onde deveria permanecer. O jovem executivo não se deixou abalar, apoiou seus pés contra a parede, ficou por cima de mim, fez força e mais força. Quando finalmente o negócio se desprendeu, ele caiu para trás num baque, mas ergueu seu braço triunfante, com o troféu a mostra. A dor foi a pior que já senti, deitei no chão me contorcendo, e não conseguia fazer absolutamente nada enquanto ele colocava uma bolota de uma gosma, metade azul e metade rosa, que pulsava forte e se remexia na sua mão. Não fosse pela maleabilidade, pareceria uma imensa bola colorida de vidro. Mas era uma parte do meu corpo, que eu nunca tinha ouvido falar, que o sujeito roubara. Pôs naquele saco imensa onde tanta coisa se mexia querendo fugir e foi embora pela porta da frente, sem problemas. Ninguém na rua nunca suspeita do homem do saco; ele sempre está tão bem arrumado.
O Homem-do-Saco estava num terno bege de corte elegante, e trazia o saco combinando. Eu fiquei paralisado de medo. Tentei me defender, mas não funcionou. Ele enfiou a mão pela minha boca, desceu com seu braço pelas minhas entranhas, eu ali, todo aberto, paralisado, deformado com aquela violência. Ele procurava alguma coisa perdida entre meus rins e os intestinos (impressionante descobrir como a gente sente tudo isso por dentro). O filha da puta ficava sorrindo com uns dentes esgarçados embaixo daquele bigodinho loiro e ralo. Pela cara, não devia ter nem cinco anos mais que meus vinte. E ainda assim, já andava com um bigodinho ridículo e um terno bege de corte alinhado, o maldito engomadinho. Aposto que eu era a última coisa entre ele e sua meta comercial do ano; que o chefe do maldito ia falar "parabéns, Jeremias, ninguém preenche a cota tão rápido desde o rapto de todas as criancinhas de Hammelin! Você tem um ótimo futuro como Homem-do-Saco."
Jeremias, Homem-do-Saco, isso mesmo. Nem fez questão de se apresentar, mas enquanto ele sedento vasculhava minhas entranhas tive bastante tempro pra ver o crachá ridículo, que dependurado recaia sobre meu rosto. Achou algo. Puxou com muita força, senti o tranco dentro de mim; mas nada aconteceu. Aparentemente estava bem fixado lá, onde deveria permanecer. O jovem executivo não se deixou abalar, apoiou seus pés contra a parede, ficou por cima de mim, fez força e mais força. Quando finalmente o negócio se desprendeu, ele caiu para trás num baque, mas ergueu seu braço triunfante, com o troféu a mostra. A dor foi a pior que já senti, deitei no chão me contorcendo, e não conseguia fazer absolutamente nada enquanto ele colocava uma bolota de uma gosma, metade azul e metade rosa, que pulsava forte e se remexia na sua mão. Não fosse pela maleabilidade, pareceria uma imensa bola colorida de vidro. Mas era uma parte do meu corpo, que eu nunca tinha ouvido falar, que o sujeito roubara. Pôs naquele saco imensa onde tanta coisa se mexia querendo fugir e foi embora pela porta da frente, sem problemas. Ninguém na rua nunca suspeita do homem do saco; ele sempre está tão bem arrumado.
lunedì, novembre 21, 2005
A Grande Convenção de 1737.
A terra era um lugar bem diferente uns três séculos atrás, muito mais do que se imagina. Até o ano que hoje nós chamamos de 1737 da era cristã, nada do que nós conhecemos existia, e uma estranha e tecnologicamente avançada civilização de humanos que não se chamam por esse nome governava o planeta.
A história desse povo é antiga e misteriosa, mas eles funcionam completamente diferente de nós. Não costumam planejar para que seus filhos tenham felicidade material e desempenhos morais que lhes sejam satisfatórios. Gostam, pelo contrário, de elaborar futuros abertamente áridos e turbulentos para propiciar o desafio certo para as próximas gerações. Foi então que naquele ano todas as pessoas mais adultas que criaças enviaram representantes para uma grande assembléia, que decidiu que no prazo de cento e onze ano todas as provas da história real desse planeta deixariam de existir, e seriam substituídas por uma elaborada construção ficcional, capaz de fazer as gerações futuras se tornarem exatamente o oposto daquilo que a humanidade era.
Contistas caprichosos resolveram contar a história de um fantástico império, berço da civilização, cujos ideais e métodos seriam difundidos justamente pelos povos bárbaros que o destruíram. As hábeis mãos de artistas criaram falsos inícios para a escrita e para as cidades na Mesopotâmia, no Egito e nos Andes. Técnicas complexas transformaram objetos novos em ruínas e artefatos que aparentavam ter milênios de idade. A população foi redistribuida pelo mundo, línguas artificais foram criadas e ensinadas aos jovens para que esses acreditassem na história de sua nação; centenas de milhares de livros, pergaminhos, afrescos e similares foram escritos retroativamente dessas línguas inventadas, até que se pudesse rastrear uma origem milenar em qualquer dialeto novato.
Poetas e filósofos usaram essas línguas e histórias para dividir o novo mundo em religiões, ciências e preceitos, cuja origem no ocidente se daria num lugar inventado chamado Grécia. As discussões ficcionais eram tão fascinantes que, em alguns momentos, os farsantes esqueciam da peça e acreditavam realmente em seus embates.
Rapidamente, toda a prova de que o mundo era um lugar completamente diferente foi sendo esquecida. Passados os cento e onze anos, as pessoas mais velhas do mundo se reuniram numa tumba no mediterrâneo, destruíram os últimos pertences que remetiam a sua existência e se sacrificaram num ritual suicida. Foi assim que o mundo começou em 1848.
A história desse povo é antiga e misteriosa, mas eles funcionam completamente diferente de nós. Não costumam planejar para que seus filhos tenham felicidade material e desempenhos morais que lhes sejam satisfatórios. Gostam, pelo contrário, de elaborar futuros abertamente áridos e turbulentos para propiciar o desafio certo para as próximas gerações. Foi então que naquele ano todas as pessoas mais adultas que criaças enviaram representantes para uma grande assembléia, que decidiu que no prazo de cento e onze ano todas as provas da história real desse planeta deixariam de existir, e seriam substituídas por uma elaborada construção ficcional, capaz de fazer as gerações futuras se tornarem exatamente o oposto daquilo que a humanidade era.
Contistas caprichosos resolveram contar a história de um fantástico império, berço da civilização, cujos ideais e métodos seriam difundidos justamente pelos povos bárbaros que o destruíram. As hábeis mãos de artistas criaram falsos inícios para a escrita e para as cidades na Mesopotâmia, no Egito e nos Andes. Técnicas complexas transformaram objetos novos em ruínas e artefatos que aparentavam ter milênios de idade. A população foi redistribuida pelo mundo, línguas artificais foram criadas e ensinadas aos jovens para que esses acreditassem na história de sua nação; centenas de milhares de livros, pergaminhos, afrescos e similares foram escritos retroativamente dessas línguas inventadas, até que se pudesse rastrear uma origem milenar em qualquer dialeto novato.
Poetas e filósofos usaram essas línguas e histórias para dividir o novo mundo em religiões, ciências e preceitos, cuja origem no ocidente se daria num lugar inventado chamado Grécia. As discussões ficcionais eram tão fascinantes que, em alguns momentos, os farsantes esqueciam da peça e acreditavam realmente em seus embates.
Rapidamente, toda a prova de que o mundo era um lugar completamente diferente foi sendo esquecida. Passados os cento e onze anos, as pessoas mais velhas do mundo se reuniram numa tumba no mediterrâneo, destruíram os últimos pertences que remetiam a sua existência e se sacrificaram num ritual suicida. Foi assim que o mundo começou em 1848.
domenica, novembre 13, 2005
O Efeito Valentina - Belmira Mortessana
Com Belmira aconteceu assim. Um dia, comprou cigarros no boteco e reparou numa carteira de motorista perdida esperando ser reconhecida no caixa pelo seu dono desatento. Noutro, viu o R.G. de uma desajeitada no lotação, grudado ao lado da catraca, pois quem sabe ela não passa por ali outro dia. É desde então que ela sabe o que fazer.
Belmira Mortessana, Berenice de nascimento, Belmira de Verdade. Nome difícil de esquecer, rosto que ninguém nunca notou, atrás dos longos e desfeitos cabelos pretos que cobrem tudo. Tirou uma foto com eles presos, uns brincos chamativos e maquiagem carregada. O verdadeiro rosto que ninguém nunca viu. Hora extra no serviço de cartório, como desculpa para tirar oitocentas e noventa cópias autenticadas da própria identidade. Um fim de semana basta para perdê-las por toda a São Paulo. E desde então, existe uma nova celebridade instantânea na cidade.
Só no mês de outubro, dezoito blogues, vinte e três fotologues, e três sites razoáveis publicaram comentários, fotos e artigos sobre o fenômeno. A musa dos botecos e lotações; quem será? Sabemos que nasceu à 13/07/1979. O nome dos pais está borrado e incompreensível em todas as cópias. Será que ela cometeu algum crime? Dalila Morena, do site "Isso sim me importa", investigou. Sim; criar um documento de uma pessoa que não existe, mas com todas as marcas federais de autenticidade, falsidade ideológica e mais uma dúzia de coisas. Sim, crime da esfera federal. Belmira Berenice das Couves, você está encrenca.
Tudo muito fatual até agora, paremos um momento para pensar nos cigarros de Belmira, de certa forma onde isso se iniciou. Consta que ela gosta de fumá-los aos pares; não ao mesmo tempo, mas sempre em seqüência. Ao todos, menos num dia que a maioria dos fumantes que você deve conhecer; mas, desde pequena, quando todos os outros precisavam de cinco minutos, a ela pareciam necessários dz ou nenhum. Daí o hábito: ela sempre tira dez minutos inteiros para fumar; caso contrário, consideraria o ato espetacularmente superficial e desnecessário, câncer pelo câncer, o que não é o caso dela por aqui.
Mas que tal crime federal (e foi tudo isso uma maneira barata de não falar nele por alguns instantes, os muito menos do que dez minutos que precisei para dizer isso?) criou uma disputa das que não se vê todo dia. Funcionário contra funcionário, a um burocrata com inusitado senso de decência pareceu que não havia porque fazer vista grossa as atividades da moça. Como no documento consta Belmira, que não existe para o estado, Fábio Moraes, o intrépido e desajeitado antagonsta que vos proponho não pôde localizar seu alvo facilmente. Foi necessário um plano. Primeira etapa simples, procurar nos locais já identificados pela jornalista. Nos botecos do largo da batata, jovens esquisitos e, no ideário de Fábio, excessivamente "pra-frentex" prestavam uma espécie de homenagem irônica e condescendenta para a imagem patética da moça do R.G. falso. O Balconista se recusou a entregar o documento; ótima isca de clientela; esses moleques não parecem mas bebem bem. Foi necessário puxar a autoridade, vantagens de quem trabalha para a polícia federal, para obrigar a entrega da prova. Finalmente, havia um começo.
Logo, despertaria o maior e mais honesto e decente detetive do Brasil.
E por essa parte, Belmira não poderia se interessar menos.
Belmira Mortessana, Berenice de nascimento, Belmira de Verdade. Nome difícil de esquecer, rosto que ninguém nunca notou, atrás dos longos e desfeitos cabelos pretos que cobrem tudo. Tirou uma foto com eles presos, uns brincos chamativos e maquiagem carregada. O verdadeiro rosto que ninguém nunca viu. Hora extra no serviço de cartório, como desculpa para tirar oitocentas e noventa cópias autenticadas da própria identidade. Um fim de semana basta para perdê-las por toda a São Paulo. E desde então, existe uma nova celebridade instantânea na cidade.
Só no mês de outubro, dezoito blogues, vinte e três fotologues, e três sites razoáveis publicaram comentários, fotos e artigos sobre o fenômeno. A musa dos botecos e lotações; quem será? Sabemos que nasceu à 13/07/1979. O nome dos pais está borrado e incompreensível em todas as cópias. Será que ela cometeu algum crime? Dalila Morena, do site "Isso sim me importa", investigou. Sim; criar um documento de uma pessoa que não existe, mas com todas as marcas federais de autenticidade, falsidade ideológica e mais uma dúzia de coisas. Sim, crime da esfera federal. Belmira Berenice das Couves, você está encrenca.
Tudo muito fatual até agora, paremos um momento para pensar nos cigarros de Belmira, de certa forma onde isso se iniciou. Consta que ela gosta de fumá-los aos pares; não ao mesmo tempo, mas sempre em seqüência. Ao todos, menos num dia que a maioria dos fumantes que você deve conhecer; mas, desde pequena, quando todos os outros precisavam de cinco minutos, a ela pareciam necessários dz ou nenhum. Daí o hábito: ela sempre tira dez minutos inteiros para fumar; caso contrário, consideraria o ato espetacularmente superficial e desnecessário, câncer pelo câncer, o que não é o caso dela por aqui.
Mas que tal crime federal (e foi tudo isso uma maneira barata de não falar nele por alguns instantes, os muito menos do que dez minutos que precisei para dizer isso?) criou uma disputa das que não se vê todo dia. Funcionário contra funcionário, a um burocrata com inusitado senso de decência pareceu que não havia porque fazer vista grossa as atividades da moça. Como no documento consta Belmira, que não existe para o estado, Fábio Moraes, o intrépido e desajeitado antagonsta que vos proponho não pôde localizar seu alvo facilmente. Foi necessário um plano. Primeira etapa simples, procurar nos locais já identificados pela jornalista. Nos botecos do largo da batata, jovens esquisitos e, no ideário de Fábio, excessivamente "pra-frentex" prestavam uma espécie de homenagem irônica e condescendenta para a imagem patética da moça do R.G. falso. O Balconista se recusou a entregar o documento; ótima isca de clientela; esses moleques não parecem mas bebem bem. Foi necessário puxar a autoridade, vantagens de quem trabalha para a polícia federal, para obrigar a entrega da prova. Finalmente, havia um começo.
Logo, despertaria o maior e mais honesto e decente detetive do Brasil.
E por essa parte, Belmira não poderia se interessar menos.
martedì, ottobre 11, 2005
Resíduos
O pistoleiro adentrou o bar, faminto e sedento. Havia acabado de estourar os miolos de alguém na esquina. A hombridade em pessoa se via em seus cabelos desgrenhados, o bigode que cobria quase toda a boca, as costeletas onde podia se esconder um dedo de cadáver. Tiro a queima roupa e ele estava coberto de sangue. Na pia, removeu rapidamente o líquido vermelho do rosto. Sentou e pediu; sorvete de creme. E como lambuzou o bigode! Sangue nas costeletas e sorvete de creme no bigode. Tudo que ele realmente precisava estava ali, e deixava as marcas visíveis à todos.
sabato, luglio 23, 2005
Estimação.
O meu vizinho tem um hipópotamo, e é um problema imenso o ronco desse bicho a noite. Minha casa até treme quando ele dorme pesado. Um barulhão grave, vibrado, parece que a erra vai cair. Além disso, a lama que ele gosta atrái tanto mosquito quedá até vergonha. A a gente teve que cobrir a casa inteira com tela. Quando vai abrir pra alguém entrar, a gente espirra veneno por toda a fresta, se não os insteos vem junto, em peso.
Alguns cachorros correm atrás de carteiros. o Hipólito (nome ridiculo, não acham?) é pior: hipopótamos costumam ser herbívoros, mas parece que ele não se importou muito com isso e engoliu um inteiro. Deu processo, mas não rendeu nada. Sabe como é, os animais as vezes tem mais direitos que gente. O Flávio, caçula do vizinho, sempre sai para passear com o hipopótamo pelas manhãs. Antes eles iam no fim da tarde, mas esse é o horário que a dona Odete costuma levar o crocodilo dela para passear, e os dois as vezes se estranham. O fato é que a Odete entendem bem mais de animais e o crocodilo dela, ao contrário daquele brutamontes, é um animal gentil e bem treinado que não suporta provocações de coisas obesas como aquele paquiderme. Era um horror.
Mas o maior problema mesmo é quando esquecem de limpar o cocô do bichinho de estimação. Que horror! O cheiro daquela bosta já fez os urubus do Aírton, da rua de cima, fugirem três vezes. A gente sempre pede pra saúde pública dar um jeito nesse hipopótamo, mas ninguém faz nada. Quer dizer, alguém faz: o meu vizinho já encomendou uma fêmea para ele.
Alguns cachorros correm atrás de carteiros. o Hipólito (nome ridiculo, não acham?) é pior: hipopótamos costumam ser herbívoros, mas parece que ele não se importou muito com isso e engoliu um inteiro. Deu processo, mas não rendeu nada. Sabe como é, os animais as vezes tem mais direitos que gente. O Flávio, caçula do vizinho, sempre sai para passear com o hipopótamo pelas manhãs. Antes eles iam no fim da tarde, mas esse é o horário que a dona Odete costuma levar o crocodilo dela para passear, e os dois as vezes se estranham. O fato é que a Odete entendem bem mais de animais e o crocodilo dela, ao contrário daquele brutamontes, é um animal gentil e bem treinado que não suporta provocações de coisas obesas como aquele paquiderme. Era um horror.
Mas o maior problema mesmo é quando esquecem de limpar o cocô do bichinho de estimação. Que horror! O cheiro daquela bosta já fez os urubus do Aírton, da rua de cima, fugirem três vezes. A gente sempre pede pra saúde pública dar um jeito nesse hipopótamo, mas ninguém faz nada. Quer dizer, alguém faz: o meu vizinho já encomendou uma fêmea para ele.
giovedì, giugno 30, 2005
O banco revolucionário
Sentou-se um contador infeliz no banco, disfarçado no meio de tantos outros, numa pequena galeria comercial sem qualquer interesse. Totalmente fora de seu hábito, pegou uma caneta, um pedaço de papel, rabiscou: "As máquinas não foram feitas para amar"; e, por mais que essa frase fosse uma obviedade, escrita sem qualquer estilo ou beleza, sentiu-se tornado um poeta. Guardou sua única obra, ergueu-se e foi embora, assobiando, morrer de tuberculose ou aids ou qualquer que seja a próxima.
Semanas depois, pousou uma perua decadente naquele mesmo banco, porém virada para o outro lado. Observava as belas roubas da coleção luxuosa de uma butique carésima a sua frente. Roupas feitas para separarem uma mulher da multidão, ela pensou, quando três loiras tingidas passaram entre ela e a vitrine, vestindo de cima a baixo peças daquela mesma coleção. Desde então, ela só usa roupas feitas em casa, de tecidos da 25 de março e couro rasgado.
Quando a galeria sofreu uma reforma geral, um empresário aproveitou para levar o banco para seu jardim, onde ele ornava muito bom. Sua recatada filha, estudante de admnistração, criou o hábito de receber rapazes - bom, geralmente eram rapazes - deslumbrantemente nua sobre aquele acento ao luar. Depois de um ano de encontros, ela engravidou e saiu de casa. Nunca mais falou com seu pai.
Furioso, o último dono estraçalhou o banco e jogou os pedaços numa caçamba de lixo. Dois garotos que passavam recolheram a madeira e a levaram para acender a fogueira de uma festa de rua. E olhando aquela chama vermelha queimar, foi que eu aprendi a respeitar as possibilidades de um simples banco de corredor de galeria.
Semanas depois, pousou uma perua decadente naquele mesmo banco, porém virada para o outro lado. Observava as belas roubas da coleção luxuosa de uma butique carésima a sua frente. Roupas feitas para separarem uma mulher da multidão, ela pensou, quando três loiras tingidas passaram entre ela e a vitrine, vestindo de cima a baixo peças daquela mesma coleção. Desde então, ela só usa roupas feitas em casa, de tecidos da 25 de março e couro rasgado.
Quando a galeria sofreu uma reforma geral, um empresário aproveitou para levar o banco para seu jardim, onde ele ornava muito bom. Sua recatada filha, estudante de admnistração, criou o hábito de receber rapazes - bom, geralmente eram rapazes - deslumbrantemente nua sobre aquele acento ao luar. Depois de um ano de encontros, ela engravidou e saiu de casa. Nunca mais falou com seu pai.
Furioso, o último dono estraçalhou o banco e jogou os pedaços numa caçamba de lixo. Dois garotos que passavam recolheram a madeira e a levaram para acender a fogueira de uma festa de rua. E olhando aquela chama vermelha queimar, foi que eu aprendi a respeitar as possibilidades de um simples banco de corredor de galeria.
mercoledì, giugno 22, 2005
Bons sentimentos não dão boa literatura.
Tinha uma escritora muito talentosa que morava num apartamento onde tudo era da cor da fumaça de cigarro. Ela tinha uma vocação secreta para romântica e, mesmo sendo muito moderna e dedicada, sonhava com grandes inspirações vindas do Olimpo que finalmente fariam dela um gênio.
Um dia, tocou sua campainha uma musa. Vinha de mala e cuia, estava sem onde morar. Muito bonita, tinha a pele azul, cabelos negros brilhantes e olhos dourados. A escritora deixou-a entrar, se apaixonou e concluiu que tinha a vida feita. Numa das malas havia milhares de papéis em branco, na verdade, uma quantidade miticamente inesgotável deles. Durante meses, papéis e mais papéis saiam da mala e eram preenchidos com os mais fabulosos contos e poemas, e novelas e até um romance ou dois. Tudo era quase que psicografado, fluia direto dos céus para o papel, com a mão no papel de um instrumento tolo; quase um obstáculo ao processo divino de criação.
Talvez tenha sido a época mais feliz da vida dela. Cantava para todos os jornais, revistas e editoras seu amor perfeito, ancestral e ideal. Escrevia metáforas e mais metáforas para o amor e a perfeição.Até sua musa falou "cansei", fechou a malinha mágica e foi embora. Assim, do mesmo jeito que qualquer musa inspiradora que você tenha encontrado pela vida provavelmente fez, porque elas são mais generosas e mais cruéis do que prostitutas baratas, e chegando o dia de ir elas não piscam duas vezes.
A mulher forte decidiu não se abalar; era sabido que isso ia acontecer algum dia. Nunca confie na mitologia grega, mamãe sempre dizia. "Fiquemos com aquilo que aproveitei da relação. Todos meus textos." Só agora ela finalmente os leu. Eram tolos, idiotas, horríveis. Egoístas, sem nenhuma relevância; apenas a ela podia interessar algo assim. Tentara, sem sucesso, publicar vários contos e poemas, e agora entendia porque. A chama inspiração destruiu sua literatura, tudo eram cartas de adolescentes no correio elegante. Ela olhou para seu apartamento cor de fumaça de cigarro, que estava todo abarrotado de papéis róseos ou ainda mais bregas. Não chegou a ler tudo antes de jogar fora. Botou fogo no lixo e sentiu vergonha. Prometeu ser fria e distante a partir de agora. Voltou cinco anos atrás as prateleiras, todos adoraram a volta do seu estilo, agora mais amargo do que nunca. E ela achou uma alegria bizarra em odiar a vida da forma como ela odeia.
Um dia, tocou sua campainha uma musa. Vinha de mala e cuia, estava sem onde morar. Muito bonita, tinha a pele azul, cabelos negros brilhantes e olhos dourados. A escritora deixou-a entrar, se apaixonou e concluiu que tinha a vida feita. Numa das malas havia milhares de papéis em branco, na verdade, uma quantidade miticamente inesgotável deles. Durante meses, papéis e mais papéis saiam da mala e eram preenchidos com os mais fabulosos contos e poemas, e novelas e até um romance ou dois. Tudo era quase que psicografado, fluia direto dos céus para o papel, com a mão no papel de um instrumento tolo; quase um obstáculo ao processo divino de criação.
Talvez tenha sido a época mais feliz da vida dela. Cantava para todos os jornais, revistas e editoras seu amor perfeito, ancestral e ideal. Escrevia metáforas e mais metáforas para o amor e a perfeição.Até sua musa falou "cansei", fechou a malinha mágica e foi embora. Assim, do mesmo jeito que qualquer musa inspiradora que você tenha encontrado pela vida provavelmente fez, porque elas são mais generosas e mais cruéis do que prostitutas baratas, e chegando o dia de ir elas não piscam duas vezes.
A mulher forte decidiu não se abalar; era sabido que isso ia acontecer algum dia. Nunca confie na mitologia grega, mamãe sempre dizia. "Fiquemos com aquilo que aproveitei da relação. Todos meus textos." Só agora ela finalmente os leu. Eram tolos, idiotas, horríveis. Egoístas, sem nenhuma relevância; apenas a ela podia interessar algo assim. Tentara, sem sucesso, publicar vários contos e poemas, e agora entendia porque. A chama inspiração destruiu sua literatura, tudo eram cartas de adolescentes no correio elegante. Ela olhou para seu apartamento cor de fumaça de cigarro, que estava todo abarrotado de papéis róseos ou ainda mais bregas. Não chegou a ler tudo antes de jogar fora. Botou fogo no lixo e sentiu vergonha. Prometeu ser fria e distante a partir de agora. Voltou cinco anos atrás as prateleiras, todos adoraram a volta do seu estilo, agora mais amargo do que nunca. E ela achou uma alegria bizarra em odiar a vida da forma como ela odeia.
lunedì, giugno 13, 2005
S.A.C.
"Obrigada por ligar para o serviço de felicidade entregue em casa! No momento, todos os nossos operadores estão ocupados. Por favor aguarde.
E então você ouve dez milhões de vezes aquela bossa nova genérica de espera telefônica.
Aí algum dia outra máquina te atende e diz:
"Obrigada pela paciência. Em poucos momentos, você será atendido."
E então, troca a bossa nova por um jazz fraco.
Finalmente, pedem alguma informação.
"Bem vindo ao nosso sistema de felicidade automática. Tecle um se quiser resolver seus problemas materiais e profissionais, dois para uma aceitação espiritual da condição humana. Disque três para ajuda com sua vocação, quatro para encontrar a família perfeita e cinco para ter muitos amigos. Disque seis para que procuremos o amor da sua vida."
Você disca seis, o resto até que está resolvido.
"O serviço de localização de felicidade amorosa está muito requisitado. Por favor, aguarde enquanto processamos seus dados."
E eles começam a repetir a mesma do Wando...
E então você ouve dez milhões de vezes aquela bossa nova genérica de espera telefônica.
Aí algum dia outra máquina te atende e diz:
"Obrigada pela paciência. Em poucos momentos, você será atendido."
E então, troca a bossa nova por um jazz fraco.
Finalmente, pedem alguma informação.
"Bem vindo ao nosso sistema de felicidade automática. Tecle um se quiser resolver seus problemas materiais e profissionais, dois para uma aceitação espiritual da condição humana. Disque três para ajuda com sua vocação, quatro para encontrar a família perfeita e cinco para ter muitos amigos. Disque seis para que procuremos o amor da sua vida."
Você disca seis, o resto até que está resolvido.
"O serviço de localização de felicidade amorosa está muito requisitado. Por favor, aguarde enquanto processamos seus dados."
E eles começam a repetir a mesma do Wando...
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