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lunedì, ottobre 09, 2006

E de repente, eu me meto em uma batalha

[vá-árias questões de estilo por resolver ainda. só pus aqui para me obrigar a fazer algo a respeito]


A metralhadora que eu nunca tinha aprendido a usar e os músculos que eu não tinha, as habilidades que não desenvolvi e uma coragem que não fazia parte da minha personalidade. Todos fluíam artificialmente no meu sangue, naquele instante eu era capaz de tudo. Mantive Jeremias imobilizado ajoelhando-me sobre seu peito. Ergui a mesa como uma barricada contra todos aqueles homens do saco. Enquanto o jovem de bege começava a asfixiar sob meu peso, eu me agachava torcendo para não ser atingido pela saraivada que começava a vir em minha direção. Puxei a metralhadora e tentava de quando em quando erguer-me e contra-atacar, mas eram muito pequenos os intervalos de tempo que me permitiam fazer isso sem perder a cabeça. Eu atingi dois ou três homens do saco. Uma multidão deles ainda avançava inabalada contra mim.

Uma janela no alto, atrás deles, se estilhaça. Muitos param para olhar para traz. Um tiro distante mata o segurança que capturara a menina do palco. Ela está livre dos braços do brutamonte, mas não de seu próprio medo e fica ali, paralisada. Caem lá de fora duas bombas de fumaça no lugar, transformando tudo numa massa cinza cheia de vultos. Nessa oportunidade, usei Jeremias, já inconsciente, de isca: levantei-o por cima da barricada com o meu chapéu em sua cabeça. Funcionou, seus colegas dispararam contra ele, enquanto me posicionei para começar o fuzilamento. A metralhadora gritava com fúria, se mexia e atirava praticamente sozinha, e acertou muito mais Homens-do-Saco do que eu podia imaginar.

Da janela estilhaçada, por cima de mim. Alguma coisa passa voando até o palco. Pareceriam duas aves desajeitadas, se não fossem do tamanho de mulheres. Eu matei muitos homens do saco, o suficiente para cobrir uma fuga, mas ainda parecia haver o suficiente deles para me fazer pagar por isso.

A menina seria preocupação, mas quando a fumaça sobre o palco se dissipou, só restava lá o cadáver do segurança. Não vi mais nem a ela, nem às coisas voadoras misteriosas. Do outro lado do cabaret, algo, talvez uma caixa de força, explode e começa um incêncio. Agarrei Jeremias que ainda tem alguma vida e arrastei-o comigo para fora dali, usando seu corpo como escudo. Só quando sai daquele porão que me dei conta: estava em via pública arrastando um sujeito baleado que provavelmente morreria em segundos!

Os meus perseguidores se tornaram ocupados demais de sua tragédia, e, vendo-os derrotados, concluo que a polícia também não representará problemas. Arrastei meu prisioneiro para um beco uns três quarteirões à frente.

Longe do perigo, minha força começou a esmorecer. Larguei Jeremias no chão, e o puto conseguiu me olhar com um risinho de desprezo. Fico mais cinza do que jamais estive. Minha mão treme. Derrubo a metralhadora que não tenho mais forças para carregar. O filho da puta fala cuspindo um monte de sangue.
"Nós vamos morrer aqui. Os dois. Juntos".

Eu não aceito. Eu não vou morrer com esse otário. Ele tem uma coisa para devolver, e vai me dizer onde ela está! Eu o esbofetearia até obter respostas, mas não tenho força para sequer um tapa. Só quando meu estômago começa a se contorcer gélido, me lembro do presente dos macacos. Uma banana do cacho sobreviveu inteira ao tiroteio, e mordo-a com a última fagulha de energia que minhas mandíbulas ainda têm. Jeremias perde seu desprezo conforme eu começo a recobrar minha cor quando termino a última mordida. Não tenho a mesma pulsão quente que usei no conflito anterior, mas tenho força suficiente para fazê-lo falar.

Dois tapas e ele já está em tanta dor que diz tudo que ainda é capaz. Cada palavra vem temperada com o gosto de ferrugem do seu sangue. Não sinto nenhuma dó.
"Deve estar na triagem ainda... no fim do mês... combustível. Forno."
"Aonde, porra?! Aonde você guardou"
"Na triagem... prédio da corporação. Segundo andar."

Não sei onde é o prédio da corporação, e esse traste acabou de fazer o favor de morrer sem contar. O tal fim do mês é daqui a dois dias, e certamente isso não é tempo de investigar cada corporação na cidade até achar uma gosma vítrea metade azul e metade rosa.

Quero voltar para encontrar Caolho, está exatamente na hora. Talvez ele possa me ajudar mais. Só quando penso no motorista, minha obsessão se desfaz e me dou conta dos fatos. Uma organização misteriosa acaba de me mandar para um lugar perigoso, cheio de Homens-do-Saco armados, sem me dar nenhuma informação. O lugar vira palco de uma batalha feroz comigo no meio, enquanto duas coisas voadoras não identificadas realizam uma missão secreta que não faço idéia de qual seja. Percebi, agora, que fui usado de isca, e que talvez meus novos "aliados" não estejam tão interessados assim na preservação minha vida. O fato de caolho ainda não ter aparecido só agrava as suspeitas. Lá em baixo, os Homens-do-Saco parecem estar se desvencilhando da confusão.

Grande! Sem pistas, sem apoio e muito em breve cercado por uma organização criminosa de pedófilos maníacos com umas belas contas a acertar.

Até que nessa hora o medo de não resgatar meu órgão perdido a tempo não era tão grande assim.


[ah, sim, não entendeu lhufas? capítulos anteriores pra você!
O homem do saco (1)
Sobrevivência (2)
Capítulo três, ainda sem um título decente.
Uma vez em casa de macacos... (4)
De volta à Cidade verdadeira (5)]

martedì, agosto 29, 2006

interlúdio um

Eu tenho um conto gigante para terminar. Terminar a primeira versão, colocada aqui em capítulos, arrecadar críticas e refinar. Mas eu empaquei na cena de ação. É difícil pra caralho escrever cenas de ação. Poxa vida, MESMO, tá dureza.

Enquanto isso, eu roubo uma imagem e a inspiração que ela me trouxe do fotolog do Ber.
(www.fotolog.com/aw6)



Eu trabalhava aqui, sabe? Nos anos duros. Eu me esforçava. O que eu fazia aqui realmente podia melhorar a vida das pessoas. Era IMPORTANTE, saca? Do tipo de coisa que dá tesão fazer. Você devia ter visto. Eu trabalhava bastante. Eu via os sorrisos e trabalhava mais.

Deus, como fiquei feliz quando essa porra toda desabou.

martedì, aprile 11, 2006

De volta à cidade verdadeira

Caolho abriu a porta do passageiro para que eu entrasse. O interior daquele carro parecia o lugar mais seguro de todo o mundo, dada a espessura do capô, a firmeza da estrutura e a potência do motor. Era quase como se viajasse num tanque de guerra. Ele deu a partida e acendeu um cigarro mantendo as janelas fechadas, fiz uma careta ao me incomodar com a fumaça, ele me encarou com reprovação. Passado um tempo, dando voltas pouco compreensivas naquele bairro irreal, o silêncio me constrangeu. Perguntei.

- Há quanto tempo você está nessa?
- Não estou. Nunca estive. Só faço alguns favores.
- Certo. Como eu posso te chamar?
- Você disse seu nome para alguém? Até agora? Uma vez?
- Não.
- Ainda bem. Pode me chamar de Caolho, como já está fazendo por dentro.

Apagou o cigarro no cinzeiro da porta e prosseguiu o caminho.

Depois de meia hora, saímos dos prédios tortos e da geografia desproporcionada. Chegamos numa parte da cidade cuja existência real eu já era capaz de admitir, embora todas as construções parecessem extremamente antigas e sombrias. Era o centro, era noite e isso era de se esperar, mas mesmo assim, dessa vez, meus olhos viam algo a mais no escuro. As sombras das sombras, acho. Novos tons de preto transformaram minha cidade numa imitação de Gotham. Caolho desacelerou e entrou em estado de alerta. Desligou os faróis e conduziu o carro com uma leveza e silêncio inesperados. Eu sempre tive por irracional o meu medo de silêncio, mas ao assistir aquele motorista espalhafatoso procurando ao máximo não ser notado, eu finalmente entendi qual era a origem nada tola desse temor. Num mundo onde não se crê em tranqüilidade, a quietude indica perigo.

Entramos num beco obscuro, com rua ainda de paralelepípedos. Não circulavam por ele nem as figuras noturnas que perambulam na região. Havia uma escada que descia para algo, que poderia ser um clube ou bordel. Caolho me orientou.

- Põe o chapéu e abaixa a aba da frente, pra sombra esconder o seu rosto. Diz na porta que as ações da Varig vão subir; vão te dizer 'você tá é louco'; diga que não, que veio pela bebida, e você está dentro. Não ache que foi fácil planejar isso, quatro pessoas quase morreram pra você saber a senha de hoje. Lá dentro não converse muito, encontre o desgraçado que te sacaneou, aposto que ele estará bebendo uísque. Você vai saber o que fazer dessa hora em diante. Me encontre de novo aqui fora em exata meia hora. Eu não vou esperar nem me atrasar. Não estarei aqui se você vier antes. Exata meia hora, ou você vai ter que se virar sozinho. Quatro pessoas quase morreram para te ajudar, e eu não serei o primeiro a conseguir.

Segui a risca as instruções do Caolho para adentrar aquele espaço. Era horrendo. Parecia um Cabaré cujo glamour fora drenado há décadas, trocado por uma concepção patética de higiene. Toda a madeira dos móveis era ridiculamente nova, envernizada, clara e homogênea. As lâmpadas eram todas econômicas, brancas azuladas. Algumas dezenas de Homens do Saco (também do sexo feminino) bebiam recatadamente e conversavam sem fazer muito barulho. O disfarce era relativamente eficiente, pois eles não pareciam se importunar muito com minha presença. A maioria lá fazia o estilo jovem executivo, com ternos listrados, gravatas, tailleurs e coques reluzentes. Algumas exceções interagiam livremente, de igual para igual no ambiente. Um ou dois homens do saco mais tradicionais, trajando o clássico mendigo esfarrapado, uma velha cigana acolá, um mestre de picadeiro escondido no canto e dessa forma minha aparência não era tão gritante.

Dei duas voltas no lugar, na segunda pedi uma gin-tônica no balcão para não parecer suspeito. Finalmente, notei Jeremias sentado numa mesa próxima ao palco vazio, olhando fixamente para a cortina de veludo. Levou à mão as coxas, que tremiam, enquanto batia o pé nervosamente no chão. Estava tão concentrado em sua ansiedade que não notou quando sentei a mesa logo atrás. Fiquei ali, observando-o por alguns minutos, imaginando o que poderia fazer a seu respeito.

Luzes se acenderam sobre o palco; às da casa se apagaram. Os Homens do Saco se aquietaram e voltaram seus olhos para a atração principal. Cortina subindo, revela uma menina, uns oito anos, vestidinho rosa com babados bucólicos, cachos que só uma avó poderia amar, e a mais terrível expressão de pânico. Uma corda amarrada em dois postes mecânicos começou a girar como se estivesse sendo conduzida por outras duas garotas; o sistema de som do lugar começou a tocar um coro de crianças desafinadas. A estrela, quase em desespero, começa a pular corda. A música se torna insuportável.

Um homem bateu à minha porta

(Eu começo a achar tudo aquilo ridículo demais)
e eu a-
(Então noto o olhar, o prazer pérfido de Jeremias e todos os homens do saco. Uma mulher de tailleur lambe os beiços.)
-bri!
(A metralhadora escondida junto ao meu peito parece ficar quente)
Senhoras e senhores
(Minhas pernas me erguem sozinhas, e se flexionam em prontidão)
Pulem num pé só!
(A menina obedece à canção. Aquele calor da metralhadora se transforma em fúria dentro de mim)
Senhoras e senhores
(Todo o meu corpo esquenta e meus músculos se tensionam. É como se tivesse muito mais energia fluindo pelo meu corpo do que deveria.)
Encostem a mão no chão.
(Eu salto para perto de Jeremias.)
Senhoras e senhores
(Jogo a mesa sobre ele, com uma força que nunca tive. O desgraçado cai no chão imóvel.)
Dêem uma rodadinha
(Todas as atenções se voltam para mim.)
E vá
(A menina corre, tentando fugir do palco)
Pro olho
(Os homens do saco se erguem e vem em minha direção. Alguns levantam pistolas. Estou cercado. A menina esbarra num segurança, que a segura refém sobre o palco.)
Da rua!

giovedì, marzo 30, 2006

Uma vez em casa de macacos...

As velhas, longas e escuras escadarias de madeira não representaram dificuldade. O ranger dos degraus e as teias de aranha nada eram comparadas a sensação de que finalmente estava chegando em algum lugar. A porta do apartamento indicado um dia tinha sido de um vermelho radiante, mas apenas guardava alguns vestígios disso. Abriu-a, obviamente, um macaco.

Era de pelagem preta, um pouco maior do que eu. Vestia roupas todas brancas, incluindo sapatos e um jaleco, e trazia um estetoscópio pendurado em volta do pescoço. Cumprimentou-me educadamente, me pediu para entrar e me sentar no sofá. Tudo na casa era vermelho vivo ou amarelo, algumas coisas desbotadas pelo tempo ou por poeira, mas se sentia as cores vibrantes como o conceito decorativo do lugar. Não nos apresentamos. Ele chamou Clarice. Clarice era outra macaca de pelo negro, lábios cuidadosamente retocados com batom, vestindo um tailleur elegante e feminino. Examinou-me de cima a baixo com o olhar e declarou, "Primeiro ele deverá ir para o banho, querido, tentar ganhar alguma cor". Ela então me conduziu por um pequeno corredor até o cômodo onde estava uma antiga banheira de porcelana toda já rachada, com uma mistura quente e convidativa de água e sabão. Ela me ajudou a me despir e pendurou as minhas roupas, e pediu que eu entrasse calmamente na água.

Quando o fiz, senti um calor completamente novo. Dentro dos ossos. Não um calor imenso, mas um abraço confortável que fazia meu pulmão respirar e minhas veias pulsarem. Ausentou-se por uns instantes e trouxe um prato de sopa meio alaranjada. Com a colher, me alimentava como se eu fosse um bebê. A sopa era picante, parecia mais um creme de mostarda e cury. Ela recostou minha cabeça num travesseiro inflável e dormi confortavelmente, até o amanhecer, com o corpo imerso naquela banheira. No dia seguinte, quando eu estava começando a aceitar o fato de que o sol entrava pela janela, o macaco me despertou nervoso, reclamando que eu precisava levantar logo para os exames. Levantei meio bamba e com a pele toda enrugada e o segui para a sala ao lado. Deitei sobre uma mesa laboratorial. Ele pressionou meu abdome, tateando-o. Então, colocou sobre mim uma espécie de aparelho de raios-X esquisitíssima e observou-a por uma telinha.

- Você tem sorte, Rapaz! - ele disse, mostrando uma chapa que tirou do vazio no meu interior - Ele arrancou isso, mas o intestino não se acomodou, e ainda tem o espaço certo para o re-implante.
- Mas afinal de contas, o que ele arrancou de mim?! - não aceitei a explicação pela metade.
- Você viu, não viu?
- Vi, mas o que era aquilo?
- Não tem nome. Mas, se você viu e chegou até aqui, acho que você sabe o que é.

E, de certa forma, eu sabia.

*

Já vestido, com mais rubor na pele, esperei no sofá enquanto meus benfeitores se reuniam num último cômodo decidindo o meu destino. A porta do apartamento se abriu e passou uma menina de uns quatro anos, com trancinhas de chocolate, vestindo macacãozinho jeans e blusa cor de rosa. Ela pulava corda e cantarolava.
"Um homem bateu à minha porta
e eu
abri!
Senhoras e senhores...

Nesse momento, ela parou de pular, se concentrou um pouco, fez cara de decepção, largou a corda no chão e correu para fora do apartamento. De longe, a ouvi cantar outra canção e conclui que deveria estar bem. Acho que ela só demorou em perceber que a brincadeira que ela praticava requeria outros amigos.
Clarice e o macaco médico vieram até mim e me pediram que entrasse na sala de reunião. Fecharam a porta e me deixaram sozinho com um sujeito (humano) sentado atrás de uma grande mesa de madeira nobre. Havia um abajur clássico de cúpula verde esmeralda iluminando solitário todo o lugar. O homem fumava charuto, e fora por não ter uma viseira, pareceria muito um antigo editor chefe de jornal metropolitano. Olhou serenamente para mim e começou.

- Ninguém aqui sabe seu nome, não é mesmo?
- Não.
- Então eu o chamarei de Cor, porque eles exageraram no tratamento e você parece uma tevê com o ajuste de cor exagerado.
- E eu o chamarei de Charuto.
- Muito justo. Você parece ter entendido.
- Quem era a menina?
- Nós estamos cuidando dela, bem como estamos de você. Vocês têm os mesmos inimigos, e nós também. Isso te basta?
- Por enquanto, sim.

Charuto olhou sério para mim. Ele viu que eu também estranhava toda essa segurança que saia de minha boca. Devia ser efeito do tal tratamento que os macacos me deram. Sorriu.

- Os nossos cuidados não podem realmente substituir o que você perdeu. Logo você começará a definhar de novo, a não ser que encontre seu órgão e faça o re-implante.
- E como eu faço isso?

Apontou para minha roupa, especialmente para o volume que a metralhadora fazia guardada dentro dela.

- O sobretudo você já tinha. A metralhadora eu te dei. Saindo daqui, não peça nada aos macacos; eles te darão uma terceira coisa. Você vai precisar dos três e de mais coisas que vai achar pelo caminho. Agora, recomendo que você deixe esse lugar e agradeça pela hospitalidade. Te vejo num breve futuro, cor.

Disse isso e apagou o abajur. A única coisa que eu ainda conseguia ver era a moldura de luz em torno da porta. Sai por ela, encontrei os macacos. Disse lhes que precisava procurar o que era meu. Eles me deram então um chapéu de lã alaranjado, para me proteger da friagem. Clarice disse que essa era a terceira coisa. O médico então entregou também um cacho com sete bananas. Eu deveria comer uma por dia, sempre na mesma hora do dia. Acabado o cacho, eu precisava voltar imediatamente para manter o tratamento. Era a única chance que tinha de continuar vivo.
Agradeci mais uma vez e desci as escadas, só então pensando que eu realmente não fazia idéia de para onde ir. Não sabia nem ao mesmo como deixar aquele lado insensato da cidade. À porta do prédio, então, avistei, ao lado de um opala preto vistoso e inacreditavelmente inteiro e forte, o motorista caolho, que parecia estar me esperando.




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(capítulo quatro já do negócio. Já? finalmente. Pra entender melhor, 1, 2 e 3.)

giovedì, febbraio 02, 2006

(Da terceira vez sempre dá certo)

(isso é um capítulo três feito com muito retardo por coisas mil. Esse lance não tem sido um grande sucesso mesmo, e retomar a idéia depois de tanto tempo só piora. Criação de expectativa e todo o mais, sei lá. Mas eu preciso levar isso a um fim. E ainda não chegou. Um, dois e três!)

Um mapa abandonado por um oráculo de rua comendo banana certamente não tem uma rosa dos ventos indicando o norte, uma escala, latitudes e longitudes. Parece muito mais com um esboço infantil de mapa da ilha do tesouro, dotado de uma simbologia pouco compreensível e de instruções herméticas que devem ser seguidas à risca. Várias vezes eu de alguma forma desobedecia uma dessas instruções, e a seqüencia de eventos a partir daí acabava por me levar de volta ao ponto de partida. Só pelo fim do dia consegui acertar todo o rumo.

Para prosseguir viagem, precisei primeiro subir ao topo do edifício mais alto e olhar toda cidade; desci e peguei carona no pára-choque do sétimo caminhão a passar pela minha frente. Saltei ao passar pelo primeiro acidente de trânsito, segunda rua à esquerda, vai ter um ponto de taxi. Lá, esperei os exatos trinta e três minutos até que aparecesse um motorista caolho, e então pedi (conforme o indicado):
- Me leve lá.

Fiquei um tempo em silêncio, olhando aquele homem estranho, com seu carro em franca decomposição, pensando no absurdo que eu havia acabado de dizer. Depois de me torturar bastante com minha própria ansiedade, ele sorriu e pediu que subisse no carro. Tentei explicar que eu não tinha dinheiro, mandou eu não me preocupar, a viagem era por conta. Dentro do carro, me senti magicamente calmo, e completamente desprovido da vontade de prestar atenção no caminho para a tal casa dos macacos. Apesar do constante barulho de peças de metal caindo do taxi contra o asfalto numa velocidade consideravelmente incoerente com a potência assumida daquele veículo, eu havia adquirido a certeza de que ia chegar, e isso me bastava.

Paramos num quarteirão expressionista. Saltei do táxi e agradeci. O motorista caolho acenou e partiu, eu vi ao longe o escapamento do carro caindo no chão. A porta do prédio estava trancada com correntes espessas e vários cadeados. Toquei uma campainha, uma voz no interfone me perguntou quem eu era, respondi sem dar detalhes. O sujeito me contou que seria necessário arrombar o cadeado. Me disse para proteger a cabeça. Vi algum objeto grande caindo da janela da rua, embrulhado em um monte de pano preto. Desenrolei o pacote e encontrei uma metralhadora daquelas típicas dos anos trinta, que aparecem em filmes de gângster, inteira nova, bem conservada e carregada. Empunhei a arma e disparei uma rajada contra as correntes que trancavam a entrada; não que eu saiba atirar, mas a metralhadora parecia ter vida própria e ser capaz de uma precisão incrível. Porta aberta, me deparo com enormes escadarias de madeira. O interfone me avisa de que posso subir.

lunedì, novembre 28, 2005

Sobrevivência

(isso é uma continuação. você não viu a primeira parte?)


Acordei uns três dias depois, era quinta feira. Dentro de mim tudo doía. Estava febril e fraco, na minha cama. A família preocupada em volta. Ninguém podia entender o que tinha me acontecido. Expliquei minha versão dos fatos. O médico disse que tal órgão não existia, acho que conversaram sobre a possibilidade de eu estar alucinando, me testaram em busca de todo tipo de drogas - passei uma semana arrastado de casa para o hospital e então de volta, e nada. Minha mãe trazia olheiras de preocupação, e cada vez que eu pensava em explicar o que aconteceu ela destava a chorar. Fiquei puto. Fodido mesmo, todo mundo dizendo que queria me curar e ninguém parava um segundo pra me ouvir. Levantei uma noite e fui embora. Essa raiva me deu uma energia provisória importante para tudo o que aconteceu a seguir; era como se por alguns instantes ela pudesse substituir o que eu tinha perdido.

Era fevereiro, mas eu sentia muito frio. Guardei tudo que conseguia carregar numa mala e vesti um sobretudo berrante, de uma fantasia de Dick Tracy que uma vez eu tentei usar no carnaval. Saí de noite, sem fazer idéia de onde ir, com os trocados que apanhei pelos cantos da casa. Toda certeza que eu tinha era uma só: era preciso achar o homem do saco e recuperar o que era meu. Pista eu não tinha nenhuma, mas esse tipo de coisa é praticamente desnecessário. Fui para o centro, que é onde gente perdida se perde mais até chegar onde não esperava.

Passei uns três dias na base da raiva e dos trocados, sobrevivendo sei lá como a tudo isso, dividindo o espaço com mendigos. Comer no centro é bem barato e não vivi tão mal assim. Eu lia dentro dos sebos e nessas horas a vida nem parecia doer; conheci todos os hits de camelôs e achei que podia ficar ali para sempre. Mas a energia que eu tinha conquistado era temporária, e começou a se esvair. Milha pele que andava vermelha perdeu toda a cor e eu agora era um tom de cinza ambulante. Se fazia necessária uma atitude rápida, mas de fato, nada que eu soubesse me ajudava, nenhum médico, nenhum amigo, nem mesmo um mendigo que disse que foi pai de santo.
Eu ia morrer tão rápido que nem sabia como.
E o porra do homem do saco ia ficar rindo com a última parte viva de mim numa estante de troféus.
*
Os oráculos de rua são assim. Eles passam pelo meio das histórias sem fazer sentido. Eles pegam nossa convicção que nada se perde e nada se cria e tomam na sopa; se tudo se transforma, não é por essa ou por aquela lei da física agiu, é porque um deles esteve presente. Pelo menos na cidade.
A minha foi uma velhota de aspecto horrendo e fedor inacreditável. Cabelos brancos e longos e quase nenhum dente, roupas indicando a mais longa mendicância, parou para comer uma banana do meu lado. Quase vomitei tudo o que restava das minhas tripas ao assistir ao gesto horrível de mastigação escancarada no qual ela insistia. A banana se amassando contra a gengiva escurecida de sujeira, e meu esôfago pulsava para fora.
Ela me disse:
- Tu tá morrendo, filho! Vai pra casa que eles te curam.
Me lembrei de que não poderia voltar a minha casa. Pensei em discutir com ela. A sujeita foi mais rápida.
- Não a da tua mãe. Não a tua que ainda não existe. Vai pra casa dos macacos.
"Ah, sua velha maluca, se eu quisesse conversar com você, gritava! Que tipo de loucura é essa que você acha que existe uma casa dos macacos e que podem ter eles a ver com me curar?"
Ao invés de ler meus pensamentos de forma tão clara como fez da primeira vez, a velha largou a casca da banana do meu lado e foi andando embora até sumir. Alguma coisa me impediu de segui-la, por mais que minha vontade fosse entender a insanidade dessa mulher. Vi que ela deixou caida perto do meu pé a casca de banana, e sob ela, desenhado num guardanapo engordurado de pastel, um mapinha.

giovedì, novembre 24, 2005

O Homem do Saco (Isso é um "capítulo" um de um lance maior)

- "Um homem bateu a minha porta e eu abri!"...Não lembro como continua essa musiquinha que as meninas cantam pra pular corda, mas te digo, rapaz, sei muito bem o que esses versos querem dizer. Querem dizer que elas são umas putinhas, todas umas putinhas! Um homem, e elas abriram. E você sabe o que ele fez, todos nós sabemos, afinal, não somos homens? As vadias? As vadias gostaram! Gozaram até o sol nascer. E saíram para cantar ao amanhecer, e pular corda e dizer que deram à noite toda, como se fosse a coisa mais bonita do mundo. Vaquinhas de merda. Você está com medo. Suando e tremendo, coitado. É porque eu estou falando isso? Só porque você abriu a porta quando eu bati? Ou é por causa desse saco de pano imenso nas minhas costas?
O Homem-do-Saco estava num terno bege de corte elegante, e trazia o saco combinando. Eu fiquei paralisado de medo. Tentei me defender, mas não funcionou. Ele enfiou a mão pela minha boca, desceu com seu braço pelas minhas entranhas, eu ali, todo aberto, paralisado, deformado com aquela violência. Ele procurava alguma coisa perdida entre meus rins e os intestinos (impressionante descobrir como a gente sente tudo isso por dentro). O filha da puta ficava sorrindo com uns dentes esgarçados embaixo daquele bigodinho loiro e ralo. Pela cara, não devia ter nem cinco anos mais que meus vinte. E ainda assim, já andava com um bigodinho ridículo e um terno bege de corte alinhado, o maldito engomadinho. Aposto que eu era a última coisa entre ele e sua meta comercial do ano; que o chefe do maldito ia falar "parabéns, Jeremias, ninguém preenche a cota tão rápido desde o rapto de todas as criancinhas de Hammelin! Você tem um ótimo futuro como Homem-do-Saco."
Jeremias, Homem-do-Saco, isso mesmo. Nem fez questão de se apresentar, mas enquanto ele sedento vasculhava minhas entranhas tive bastante tempro pra ver o crachá ridículo, que dependurado recaia sobre meu rosto. Achou algo. Puxou com muita força, senti o tranco dentro de mim; mas nada aconteceu. Aparentemente estava bem fixado lá, onde deveria permanecer. O jovem executivo não se deixou abalar, apoiou seus pés contra a parede, ficou por cima de mim, fez força e mais força. Quando finalmente o negócio se desprendeu, ele caiu para trás num baque, mas ergueu seu braço triunfante, com o troféu a mostra. A dor foi a pior que já senti, deitei no chão me contorcendo, e não conseguia fazer absolutamente nada enquanto ele colocava uma bolota de uma gosma, metade azul e metade rosa, que pulsava forte e se remexia na sua mão. Não fosse pela maleabilidade, pareceria uma imensa bola colorida de vidro. Mas era uma parte do meu corpo, que eu nunca tinha ouvido falar, que o sujeito roubara. Pôs naquele saco imensa onde tanta coisa se mexia querendo fugir e foi embora pela porta da frente, sem problemas. Ninguém na rua nunca suspeita do homem do saco; ele sempre está tão bem arrumado.