domenica, luglio 31, 2005

Caros dirigentes mundiais,

Após anos de pesquisa, nossa organização pode finalmente determinar com segurança que a principal causa de mortes na humanidade é a passagem do tempo. Mesmo as vítimas da violência da guerra e de nossos tão amados atentados terroristas não morrem instantânemamente, deixando claro que se o tempo for congelado, suas vidas podem ser salvas. O maior problema da saúde mundial, caros senhores, é o fluxo ordenado de enventos.

Por isso, viemos por meio dessa, oferecer nosso projeto para congelar definitiamente o tempo, de maneira a garantir a humanidade uma existência saudável e prolongada. Embora estejamos empenhados nessa causa por puro interesse humantário, pedimos vosso apoio para obter os recursos tecnológicos para realizar esse dispendioso projeto. Nossos engenheiros projetaram um dispositivo capaz de transformar toda a massa da lua em energia, o que pelas fórmulas comprovadas pelos principais físicos do século XX garantiria uma geração de força inacreditável, capaz de alimentar a segunda parte do plano: um campo de força que paralisaria a rotação e a translação da terra.

Sem as fases da lua, a variação da lumnosidade do dia e as estações do ano, todos os determinantes de tempo que conhecemos terão sido eliminados, e por princípio filosófico, o próprio tempo, como uma dimensão alheia a vontade humana, deixará de existir. É preciso matar o tempo, antes que ele nos mate, e, senhores, nós temos como fazê-lo. Como congelar todos os relógios e criar um paraíso de eternidade.
Por favor, mandem um cheque.

Atenciosamente

Toda a equipe da Agencia F.O. de tecnologia insensata.

sabato, luglio 23, 2005

Estimação.

O meu vizinho tem um hipópotamo, e é um problema imenso o ronco desse bicho a noite. Minha casa até treme quando ele dorme pesado. Um barulhão grave, vibrado, parece que a erra vai cair. Além disso, a lama que ele gosta atrái tanto mosquito quedá até vergonha. A a gente teve que cobrir a casa inteira com tela. Quando vai abrir pra alguém entrar, a gente espirra veneno por toda a fresta, se não os insteos vem junto, em peso.
Alguns cachorros correm atrás de carteiros. o Hipólito (nome ridiculo, não acham?) é pior: hipopótamos costumam ser herbívoros, mas parece que ele não se importou muito com isso e engoliu um inteiro. Deu processo, mas não rendeu nada. Sabe como é, os animais as vezes tem mais direitos que gente. O Flávio, caçula do vizinho, sempre sai para passear com o hipopótamo pelas manhãs. Antes eles iam no fim da tarde, mas esse é o horário que a dona Odete costuma levar o crocodilo dela para passear, e os dois as vezes se estranham. O fato é que a Odete entendem bem mais de animais e o crocodilo dela, ao contrário daquele brutamontes, é um animal gentil e bem treinado que não suporta provocações de coisas obesas como aquele paquiderme. Era um horror.
Mas o maior problema mesmo é quando esquecem de limpar o cocô do bichinho de estimação. Que horror! O cheiro daquela bosta já fez os urubus do Aírton, da rua de cima, fugirem três vezes. A gente sempre pede pra saúde pública dar um jeito nesse hipopótamo, mas ninguém faz nada. Quer dizer, alguém faz: o meu vizinho já encomendou uma fêmea para ele.

giovedì, luglio 14, 2005

Alguém disse uma vez "As vezes eu quero morrer." Respondeu-se "Te entendo. As vezes, me dá uma vontade enorme de comer queijo."
E o pior é que ele entendia mesmo.

giovedì, giugno 30, 2005

O banco revolucionário

Sentou-se um contador infeliz no banco, disfarçado no meio de tantos outros, numa pequena galeria comercial sem qualquer interesse. Totalmente fora de seu hábito, pegou uma caneta, um pedaço de papel, rabiscou: "As máquinas não foram feitas para amar"; e, por mais que essa frase fosse uma obviedade, escrita sem qualquer estilo ou beleza, sentiu-se tornado um poeta. Guardou sua única obra, ergueu-se e foi embora, assobiando, morrer de tuberculose ou aids ou qualquer que seja a próxima.
Semanas depois, pousou uma perua decadente naquele mesmo banco, porém virada para o outro lado. Observava as belas roubas da coleção luxuosa de uma butique carésima a sua frente. Roupas feitas para separarem uma mulher da multidão, ela pensou, quando três loiras tingidas passaram entre ela e a vitrine, vestindo de cima a baixo peças daquela mesma coleção. Desde então, ela só usa roupas feitas em casa, de tecidos da 25 de março e couro rasgado.
Quando a galeria sofreu uma reforma geral, um empresário aproveitou para levar o banco para seu jardim, onde ele ornava muito bom. Sua recatada filha, estudante de admnistração, criou o hábito de receber rapazes - bom, geralmente eram rapazes - deslumbrantemente nua sobre aquele acento ao luar. Depois de um ano de encontros, ela engravidou e saiu de casa. Nunca mais falou com seu pai.
Furioso, o último dono estraçalhou o banco e jogou os pedaços numa caçamba de lixo. Dois garotos que passavam recolheram a madeira e a levaram para acender a fogueira de uma festa de rua. E olhando aquela chama vermelha queimar, foi que eu aprendi a respeitar as possibilidades de um simples banco de corredor de galeria.

mercoledì, giugno 22, 2005

Bons sentimentos não dão boa literatura.

Tinha uma escritora muito talentosa que morava num apartamento onde tudo era da cor da fumaça de cigarro. Ela tinha uma vocação secreta para romântica e, mesmo sendo muito moderna e dedicada, sonhava com grandes inspirações vindas do Olimpo que finalmente fariam dela um gênio.

Um dia, tocou sua campainha uma musa. Vinha de mala e cuia, estava sem onde morar. Muito bonita, tinha a pele azul, cabelos negros brilhantes e olhos dourados. A escritora deixou-a entrar, se apaixonou e concluiu que tinha a vida feita. Numa das malas havia milhares de papéis em branco, na verdade, uma quantidade miticamente inesgotável deles. Durante meses, papéis e mais papéis saiam da mala e eram preenchidos com os mais fabulosos contos e poemas, e novelas e até um romance ou dois. Tudo era quase que psicografado, fluia direto dos céus para o papel, com a mão no papel de um instrumento tolo; quase um obstáculo ao processo divino de criação.

Talvez tenha sido a época mais feliz da vida dela. Cantava para todos os jornais, revistas e editoras seu amor perfeito, ancestral e ideal. Escrevia metáforas e mais metáforas para o amor e a perfeição.Até sua musa falou "cansei", fechou a malinha mágica e foi embora. Assim, do mesmo jeito que qualquer musa inspiradora que você tenha encontrado pela vida provavelmente fez, porque elas são mais generosas e mais cruéis do que prostitutas baratas, e chegando o dia de ir elas não piscam duas vezes.

A mulher forte decidiu não se abalar; era sabido que isso ia acontecer algum dia. Nunca confie na mitologia grega, mamãe sempre dizia. "Fiquemos com aquilo que aproveitei da relação. Todos meus textos." Só agora ela finalmente os leu. Eram tolos, idiotas, horríveis. Egoístas, sem nenhuma relevância; apenas a ela podia interessar algo assim. Tentara, sem sucesso, publicar vários contos e poemas, e agora entendia porque. A chama inspiração destruiu sua literatura, tudo eram cartas de adolescentes no correio elegante. Ela olhou para seu apartamento cor de fumaça de cigarro, que estava todo abarrotado de papéis róseos ou ainda mais bregas. Não chegou a ler tudo antes de jogar fora. Botou fogo no lixo e sentiu vergonha. Prometeu ser fria e distante a partir de agora. Voltou cinco anos atrás as prateleiras, todos adoraram a volta do seu estilo, agora mais amargo do que nunca. E ela achou uma alegria bizarra em odiar a vida da forma como ela odeia.

sabato, giugno 18, 2005

"Coz there aint no woman or man or tranny or thing whose gonna love you like they should"

Ou então a gente explica tudo isso dizendo que no momento, a vida é uma droga.

E o pior é que aquilo é um verso de uma música feliz.

lunedì, giugno 13, 2005

S.A.C.

"Obrigada por ligar para o serviço de felicidade entregue em casa! No momento, todos os nossos operadores estão ocupados. Por favor aguarde.
E então você ouve dez milhões de vezes aquela bossa nova genérica de espera telefônica.
Aí algum dia outra máquina te atende e diz:
"Obrigada pela paciência. Em poucos momentos, você será atendido."
E então, troca a bossa nova por um jazz fraco.
Finalmente, pedem alguma informação.
"Bem vindo ao nosso sistema de felicidade automática. Tecle um se quiser resolver seus problemas materiais e profissionais, dois para uma aceitação espiritual da condição humana. Disque três para ajuda com sua vocação, quatro para encontrar a família perfeita e cinco para ter muitos amigos. Disque seis para que procuremos o amor da sua vida."
Você disca seis, o resto até que está resolvido.
"O serviço de localização de felicidade amorosa está muito requisitado. Por favor, aguarde enquanto processamos seus dados."
E eles começam a repetir a mesma do Wando...

giovedì, giugno 09, 2005

Plan A ou O Amor em Pessoa

Porque somos todos céticos esperando ir para o paraíso, e todas as mulheres independentes que conheci adoram um príncipe encantado. O mundo desanda nessa nossa vontade de ser salvo. Por mais idiota que eu saiba que é, por mais que você ache que só os otários ainda fazem isso, eu ainda fico aqui tentando ser uma pessoa boa, não porque eu quero de verdade ser uma pessoa boa, mas porque de alguma forma tudo tem que dar certo pra mim. Se eu nunca li a Bíblia, devem ter me dado melodramas o suficiente no lugar. E seja num disco voador para outro planeta ou abraçado no amor em pessoa, quantos de nós não ficamos nessa vida só esperando o dia de ir embora?
É gozado como a decisão de dizer que chega disso tem que ser refeita todo dia, e, mesmo assim, as vezes a gente é pego pelo plano a e se esquece de ser feliz.

domenica, giugno 05, 2005

"I love Jack White like a little brother"




"Well, this is the last show on this tour, so if you don't mind we would like to play a little longer. We're gona play some new songs you never heard before, unless you want us to just play seven nation army and go home, ok?*"

HA!

*É claro que minha memória já distorceu a fala totalmente, mas era essa a idéia.

martedì, maggio 31, 2005

Can't step of the train

Quando eu comprei a passagem, a moça da bilheteria deu uma risadinha irônica. Pensei brevemente no que podia ser tão idiota assim em comprar aquela passagem, mas conclui que ela deveria era estar louca e fui tomar o café com pão de queijo da estação. Café, pão de queijo e estações de trem tem uma força anos trinta incrível, então rapidamente todas as cores decaíram a tons de sépia e as roupas se tornaram aquelas coisas charmosas, desconfortáveis e quentes de muito tempo atrás.
É curioso que em pleno século vinte e um o único jeito de se chegar naquela montanha seja de trem. Eu não devia perder tempo indo até uma montanha besta; eu devia ser Maomé. Mas eu não sou, e preciso ir até a porra da montanha.
Café nos anos trinta era engraçado, foi a primeira coisa que eu descobri. Quer dizer, ele era todo plantado aqui e era muito que sempre sobrava, então é algo de incrivel como o grão era mais fresco.
A segunda coisa que eu descobri é que pouquíssima gente entrava nesse trem. Uns solitários de capotes, umas jovens donzelas ingênuas e alguns boêmios cheios de conhaque e ópio. Ninguém embarcava acompanhado, e as pessoas na estação pareciam olhar curiosas em volta, todas com a mesma ironia contente da mulher que vendeu a passagem. A fila andou, um moço recebeu minha passagem; ele não falou com mais ninguém, mas na minha vez, me fitou nos olhos, e me disse com uma clareza solene: "Até que o trem pare, você não pode sair." Eu concordei com o pescoço, embaraçado pelo conselho um tanto ridículo e óbvio que acabara de ouvir. Um monte de silenciosos depois de mim, até que finalmente partimos.
Duas horas de trilhos e a paisagem urbana já deu lugar a pés de café e vacas. Na terceira, já podia ver a montanha lá no horizonte; meio azulada, como dizem que é o Olimpo, porque nessas horas a gente fica querendo ser heróico que nem aqueles intelectuais que sempre falam de coisas gregas. Achei que até o fim do dia chegaríamos, até entrar num túnel escuro e terivelmente longo. Passou a noite toda lá, e talvez alguma manhã. Claustrofóbico demais, mal consegui dormir. Quando acordei, a montanha estava lá atrás. Perguntei ao moço que conferia o bem estar dos passageiros. "Por ali não havia acesso; acalme-se, agora já estamos quase chegando. O senhor não pensou que seria uma linha reta, não é mesmo?"
Eu me senti idiota de ter acreditado na linearidade. Está bem, que venham as curvas, já estamos chegando. Curvas e curvas e mais curvas, e já voltamos a direção da montanha. Há um mar de morros. As curvas sobem e descem e contornam cada um dos morros, e depois pontes passam por cima dos morros e das curvas, e a noite acontece e desacontece, e ainda estamos chegando. "Agora falta tão pouco, por favor se acalme."
Só as vezes, parece que estamos chegando realmente mais perto, e então, curva! e estamos de novo sempre a mesma distância. Nunca a montanha. Sempre falta tão pouquinho; o trem nunca pára. Eu não aguento mais. Preciso descer. Vou até a porta do vagão. A janela tem o rosto da balconista, ela sorri e diz "o senhor não pode descer de um trem em movimento." A porta não abre. Agh! "Por favor, senhor, se acalme e sente. Nós já estamos quase lá."
É mentira, a montanha não chega, o trem não pára. E eu não posso descer.

Um dia a gente aprende a ser feliz só de ver a paisagem e ouvir o som dos trilhos, sempre sorrindo com a idéia de que vamos à montanha.